domingo, 21 de abril de 2013

Eu, um rato de biblioteca!


Conto 
Por Austri Junior
(Homenagem à minha Professora da 5ª série, Maria de Lourdes)

Sempre fui fascinado pela leitura! Desde que aprendi a ler, não me afastava dos gibis: Super Homem, Homem Aranha, Batman, O Demolidor, Tex, Top Secret, foto novelas da revista Capricho, Almanaque Disney, Turma da Mônica... Bons tempos!

Aos onze anos de idade tive uma professora de português, maravilhosa, professora Maria de Lourdes, nunca a esqueci, e jamais poderei esquecê-la. A professora De Lourdes era uma senhora de fala mansa, gestos brandos, atitudes super calmas. O seu olhar era um olhar de ternura e compreensão. Jamais levantara a voz para nenhum de nós e nunca mandou nenhum aluno para a coordenação ou para a sala da diretora, a Dona Amália, da qual todos nós morríamos de medo. Só de ouvir falar: "Dona Amália vem aí", nós todos ficávamos paralizados.

A "Dona de Lourdes" - era assim que a chamávamos - usava para conosco uma dinâmica fantástica de leitura e escrita. Estávamos na 5ª série (hoje sexto ano), e algumas semanas após ter se iniciado as aulas, a Dona de Lourdes após ter feito a chamada, perguntou-nos (como se não já soubesse a resposta):

- Quem aqui, gosta de ler histórias em quadrinhos, levante a mão?

Todos na sala, evidentemente levantaram as mãos. Então ela disse-nos:

- Turma, eu tenho uma proposta para fazer para vocês: Que tal vocês criarem os seus próprios personagens e escreverem as suas próprias  estórias, não em forma de quadrinhos, mas em forma de narrativa, uma redação. Niguém é obrigado a fazer, mas os que fizerem ganharão um ponto, e os que lerem as suas estórias para a classe, ganharão dois pontos, e uma vez por semana, toda terça-feira, nós faremos as apresentações. O que vocês acham?

A maioria dos alunos que estavam na  sala vibraram com a ideia da Dona de Lourdes. Passada a euforia, um medo enorme se apoderou de nós. Não sabiamos o que fazer nem como fazer e levamos as nossas angústia até a professora, que nos acalmou e disse:

- Não se preocupem! Eu ajudarei vocês. Façam a primeira estória e tragam-na para mim na próxima terça-feira, e a partir daí nós vamos aprendendo juntos...

Aquilo  que a professora De Lourdes estava fazendo conosco não tinha prêço, e não tem até hoje. Foi a partir daí que desembrestei a escrever e aumentar ainda mais o meu gosto pela leitura, e comecei a madurecer, pois além das redações que agora escrevíamos como quem brincava na praça (e antes disso, morríamos de medo de escrever redações), líamos os livros "obrigatórios" com muito gosto. Essas "leituras obrigatórias", eram angustiantes pois tínhamos que ler o livro e fazer prova, era um livro por mês. A  professora mudou a didática, e nós não fazíamos mais a prova, agora nós falávamos sobre o livro: A estória, os personagens, os locais, as emoções, tudo o que vivenciávamos na estória, no livro durante a leitura... Lembro-me como se fosse ainda hoje, e jamais esqueci os livros que li. A maioria deles era da Editora Ática e da Coleção Vagalume. Entre eles: "A Ilha Perdida", "Éramos Seis", "O Cachorrinho Samba"... Nunca mais, nós os alunos da professora Lourdes, fomos os mesmos. No fim do ano, todos estavam escrevendo e lendo em sala de aula as nossas próprias estórias e construindo os nossos próprios personagens.

Além dos livros obrigatórios, eu lia por minha própria conta (correndo por fora), outros livros que tomava emprestado na Biblioteca Estadual e na Biblioteca Municipal. Tornei-me um "rato de biblioteca", amava e amo até hoje aquela atimosfera silenciosa que reinava dentro das bibliotecas - as pessoas respeitavam o ambiente de leitura - hoje as bibliotecas são muito barulhentas. Amava e ainda amo o cheiro de papel velho, e a combinação do cheiro de tinta em papel novo. Não troco o livro por nada, mesmo sabendo que se derrubam algumas árvores para construir alguns livros - a solução é plantar árvores com o objetivo de usá-las somente na fabricação dos livros - Amo o velho e bom livro. Amo a boa e maravilhosa leitura!

Ao começar a frenquentar as bibliotecas para ler por amor à leitura e pela paixão pelos livros, e não somente para fazer  pesquisas para trabalhos e para os deveres de casa - naquela época não havia a internet e eu era uma criança muito pobre, e a minha mãe não tinha dinheiro para comprar a Coleção Barsa e nem a Coleção Delta la Rousse - eu pude contemplar leituras clássicas maravilhosas da literatura internacional tais como: "A Ilha do  Tesouro", "Robinson Cruzoé", "Peter Pan", "David Copperfield", "A Família Robinson", "O Pequeno  Principe", "O Menino do Dedo Verde", "O Maior Presente do  Mundo", "Fernão Capelo Gaivota", "Longe é Um Lugar Que Não Existe"... E mais tarde: "Um Brasileiro no Exército de Napoleão" , "Horiizonte Perdido", "Ladrão na Noite", e todos os livros de T. Lobsang Rampa, entre muitos outros...

Tudo o que leio hoje, todas as pesquisas científicas e acadêmicas que faço, e tudo o que escrevo (até mesmo as besteiras), só faço por que um anjo me iluminou. Seu nome? Repito: Professora Maria de Lourdes! Muito do que sou hoje, devo a esse anjo. Quantas Marias de Lourdes existem ainda hoje? Professores assim ressignificam as vidas dos seus alunos, e podem ajudá-los a construir um futuro muito melhor e mais promissor. Foi por causa da "Dona de Loudes" que eu hoje sou um "rato de biblioteca". Ela me deu isso, e hoje eu passo a diante. Me esforço para ser a "Dona de Lourdes" na vida dos alunos cuja vida cruzam com a minha vida. Ler é tudo de bom!

domingo, 14 de abril de 2013

Maria ficheira e a fila do SUS

Conto 
Por Austri Junior

Eram quatro horas da manhã, ouvi vozes altas como se estivessem dentro da minha casa. Eram vozes femininas e vozes masculinas misturadas, atrapalhando o meu sono. Pensei: "De onde estão vindo essas vozes"? Entre as vozes femininas reconheci logo de cara, uma certa voz que sempre chama a atenção pelo seu tom altíssimo e exagerado, pelas besteiras que fala, e principalmente pelas altíssimas gargalhadas. Era a voz da  "Maria ficheira". Maria ficheira é uma senhora muito indiscreta, que toda terça-feira está na fila do SUS, pegando fichas "profissionalmente". Essa senhora possui quatro fortes características: Contar "estórias", fazer fofocas, furar a fila e meter o bedelho na vida das outras pessoas com uma dose muito grande de indiscrição.

Eu mora em frente ao posto de saúde e por isso acabo vendo ouvindo toda a movimentação que emana da da fila do SUS. Muitas pessoas, pensam que morar em frente ao posto de saúde é uma "benção". Eu, tanbém já pensei assim (antes de  receber essa "bênção"). A verdade é que residir em frente ao posto de saúde acaba com a saúde da gente... É muito barulho atrapalhando o nosso sono durante a madrugada. Nos dias de marcação de consulta e nos dias de recolhimento de materiais para exames a fila começa a se formar cedo e as pessoas vão chegando, uma de cada vez e logo temos uma multidão formada, ávidas por conversar, "colocar papo em dia", como se diz por aí... Nos dias de vacinação das crianças, choros e berros se ouvem ao longe, alguns chegam assustar, quando distraídos estamos. Alguns berros e choros incomodam bastante, parece que estão praticando um holocausto com crianças, tamanho é o desespero delas, e das mães também, que gritam com as crianças e brigam com os maridos.

Quem já esteve na fila do SUS, seja em um posto de saúde, em uma policlínica, ou em algum pronto atendimento, sabe bem como é. Ali temos uma grande miscelânea de gentes. Pessoas de todos os tipos: Gentes emburradas e mau-humuradas, gentes desconfiadas, pessoas "comédias", pessoas caladas, pessoas falantes (essas são a maioria). Tem as pessoas que fazem disso um meio de vida, como a Maria ficheira, por exemplo. Tem as velinhas fofoqueiras que em duas ou três horas de espera nos põem a par e nos "atualizam" sobre tudo o que acontecce na comunidade, e sobre tudo o que acontece na vida dos vizinhos, inclusive citando os nomes mesmo que não saibamos nem de quem se trata, muito menos o nome dessas pessoas. Quando dizemos: "Não sei que é esse fulano, ou essa fulana", elas fazem questão de apontar a direção da casa. As velinhas fofoqueiras têm uma necessidade enorme de falar (da vida dos outros), e falam tanto, que nem as suas famílias escapam. Mas há também as "novinhas" fofoqueiras. Aliás, a prática da fofoca na fila do SUS não tem idade nem sexo. A fofoca na fila do SUS é generalizada e vemos ali também, muitos homens muito fofoqueiros, e quanto mais idosos, mais fofocas praticam.

Na fila do SUS os assuntos variam de acordo com a idade, com a escolaridade, com a experiência de vida de cada pessoa: As mães falam muito sobre filhos e crianças, as esposas conversam sobre sobre os seus maridos e conversam muito sobre os desafetos vividos dentro do lar. As pessoas hipocondríacas conversam sobre remédios e doenças e "sabem tudo" sobre o assunto. Conhecem todas as doenças, todos os nomes dos remédios e sabem o nome e os horários de atendimentos de todos os médicos. Tem também os evangelizadores de plantão que se comunicam nos idiomas "crentês" ou "evangeliquês", tentando converter a fila, dando testemunho de si mesmos e sempre com muito convencimento, ao mesmo tempo que dão contra-testemunho jogando lixo no chão, fazendo fofocas, furando a fila, entre outras coisa abomináveis. A Maria ficheira é uma dessas pessoas que se comunicam em "crentês" e "evangeliquês", e está sempre disposta a dar testemunhos ao mesmo tempo em que apresenta um forte contra-testemunho de vida na fila do SUS.

Sempre que vou ao posto de saúde eu quero ficar na minha, ouvindo notícias pelo rádio do celular, com um fone de ouvido, mas a fila do SUS tem as suas particularidades e características próprias e imutáveis, e uma delas é que a privacidade é uma palavra desconhecida, e nada do que façamos, vai mudar isso... As pessoas falantes sempre dão um jeitinho de puxar conversa com as outras pessoas ao seu redor, ou de inserí-laas em suas conversas dirigindo-lhes o olhar, ou balançado a cabeça, fazendo sempre algum sinal como que a perguntar para o outro: "Não é mesmo?"

Acho que as pessoas têm necessidade de falar por vários motivos: Algumas porque não conseguem calar-se, outras porque não têm ninguém para conversar ou ninguém lhes dá atenção, outras porque querem chamar a atenção de todos para sí, outras por falta de sabedoria e discernimento... Em fim, são apenas gentes. Gentes com muitos e variados problemas e frustrações, gentes esquecidas, abandonadas, pobres em várias situações: Pobres de dinheiro, pobres de cultura, pobres  em conhecimento, pobres... São pessoas em sua maioria sofredoras em busca de alento para as suas mazelas, atendimento para as suas doenças, compreenção para os seus problemas. Muitas vezes essas pessoas são mal atendidas e não encontram a solução para os seu problemas, e muitas acabam explodindo o seu mau-humor. Todas essa pessoas são gentes carentes que precisam de atenção e carinho.

Mas que a "Maria ficheira" do meu bairro, aquela que me acorda toda terça-feira de madrugada e me pertuba com as suas falácias quando estou na fila do SUS me irrita, ah, isso sim... Como essa mulher me irrita!

quarta-feira, 13 de março de 2013

Habemus Papam - Francisco I

Religião
Argentino é anunciado Papa Francisco I.
Esta é a primeira vez em dois milênios que o Santo Padre é nascido na América
 
Publicação: 13/03/2013 16:18  - Atualização: 13/03/2013 16:48
 

Francisco I, o 266º papa da Igreja Católica, foi eleito depois de cinco votações (AFP PHOTO/DANIEL GARCIA)
Francisco I, o 266º papa da Igreja Católica, foi eleito depois de cinco votações

"Habemus Papam". E o Sumo Pontífice é argentino. A notícia, há poucos dias impensada pelos fiéis latino-americanos, veio às 16h18 horas desta quarta-feira, pouco mais de uma hora após a fumaça branca subir no Vaticano. Seguindo a tradição de dizer o primeiro nome do novo papa em latim e o sobrenome no idioma de origem, o cardeal-diácono Jean-Louis Tauran anunciou aos milhares de católicos presentes no Vaticano, da varanda central da Basílica de São Pedro, Dom Jorge Mario Bergoglio, agora Francisco I, como novo sucessor de Pedro no comando da Igreja Católica. Esta é a primeira vez em dois milênios que é escolhido um Santo Padre nascido na América. Há mais de 1300 anos, o eleito pelo conclave sequer era de fora da Europa.
Francisco I, o 266º papa da Igreja Católica, foi eleito depois de cinco votações. O jesuíta de 76 anos não era um dos nomes mais cotados, mesmo assim a  decisão foi rápida, foram apenas cinco reuniões do conclave para que o novo líder da igreja fosse escolhido. O que mostra que uma rápida unidade foi construída em volta do novo papa.

Os desafios do novo pontificado apresentam caminhos árduos, já que muitos analistas indicam que a renuncia de Bento XVI foi motivada pela falta de saúde de Joseph Ratzinger para resolver os problemas enfrentados pela Santa Sé.

Papa Francisco I beija João Paulo II, em 2001 (REUTERS/Paolo Cocco)
Papa Francisco I beija João Paulo II, em 2001
Trajetória Jorge Mario Bergoglio nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires. Foi ordenado para os jesuítas em 13 de dezembro de 1969 durante os estudos teológicos na Faculdade de Teologia de San Miguel, onde foi reitor de 1980 a 1986.  Depois de completar sua tese de doutorado na Alemanha, serviu como confessor e diretor espiritual em Córdoba.

Foi nomeado bispo titular de Auca e Auxiliar de Buenos Aires em 20 de maio de 1992 e recebeu a consagração episcopal em 27 de junho do mesmo ano. Em 3 de junho de 1997, foi nomeado Arcebispo Coadjutor de Buenos Aires e Cardeal Antonio Quarracino em 28 de fevereiro de 1998. Bergoglio atuou como presidente da Conferência Episcopal da Argentina de 8 de novembro de 2005 até 8 de novembro de 2011. Em fevereiro de 2001, foi proclamado cardeal pelo beato João Paulo II.


 (Arte/Soraia Piva)

Desafios Francisco I começa o papado com grandes desafios. A Igreja Católica enfrenta uma estagnação no número de fiéis, bem como a queda no número de padres. Além disso, leis liberais votadas em diversos países ocidentais têm incomodado a igreja. Outro problema que deve ser superado pelo argentino é o escândalo envolvendo denúncias sexuais contra religiosos.

Visita ao Brasil
O novo papa deve visitar ao Brasil em julho, para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), evento internacional organizado pela Igreja Católica que reúne jovens de todo o mundo. Antes disso, não existe nenhuma agenda confirmada na América.
 
Fonte: Arautos do Evangelho
http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2013/03/13/interna_internacional,356743/argentino-e-anunciado-papa-francisco-i.shtml

domingo, 10 de março de 2013

O mundo é um verdadeiro barril de pólvora

Sociedade
Por Austri Junior

Introdução

O ano de 2013 mal começou e já estamos envoltos em meio à tantas e importantes façanhas. Seja em nossa vida pessoal, seja em nossa vida em sociedade. Essas façanhas são realmente relevantes na sociedade e no mundo, e na vida das cidadãs e dos cidadãos, e que muitos de nós sequer o percebemos na sua totalidade. Dentre essas façanhas, gostaria de conversar rápidamente com vocês sobre algumas questões que estão acontecendo aqui (no Brasil) e no mundo, e como de costume, sempre que faço alguma análise, faço-a a partir de um prisma social, lançando sobre a mesma um "Olhar Teológico", e não abro mão disso, pois a teologia, ao contrário de que muitos pensam ou consigam perceber, está presente em tudo... Seja nos acontecimentos sociais ou seja na política, e até mesmo na educação, na arte e na cultura... Por isso essa "Lente Teológica" em minhas escritas. E, somente para esclarecer aos que estão chegando aqui pela primeira vez, digo: "Teologia não é religião. Teologia é Ciência Social." Poucos sabem disso, e muitos não querem saber, mas sempre faço questão de tocar nessa tecla.

Bento XVI

Dentre os fatos que mencionarei, quero começar pelo que na minha opinião, considero ser o mais importantante dentre todos: A renúncia de Bento XVI. Porque que a renúncia de Bento XVI é tão importante para o mundo ou para a minha vida? Alguém pode estar se perguntando nesse momento. Ou, que importância tem isso para um protestante, para um "evangélico", para um mulçumano ou mesmo para um ateu? Bem, isso vai depender da sensibilidade e do nível intelectual de cada um... Quanto mais sábio o homem, maior a sua capacidade de interpretação e maior ainda a sua sensibilidade para compreender o mundo e as coisas à sua volta.



A igreja (instituição), seja ela qual for, ela é política e social, mesmo que viva chafurdada no êxtase do "glória a Deus e aleluia". A igreja católica romana talvez seja a mais política e social de todas as igrejas. Para início de conversa, sabemos que o Vaticano, sede mundial do catolicismo é um país. E é um país com cidadãos espalhados pelo mundo inteiro. Um pais que possui banco, influência e poder politico. A mais recente prova disso foi o esforço político que Joseph Ratzinger fez e com grande êxito para aproximar o ocidente do oriente médio que estão separados há séculos por questões religiosas e políticas. É no campo político que as negociações de paz e convivência são consolidadas, pois a religião divide e separa mais do que re-liga. A iniciativa de Bento XVI de pedir perdão ao povo mulçumano pelos erros do ocidente e pelos erros dos cristãos abriu uma nova fronteira de entendimento entre os dois povos. Então, qual é a relevância desse assunto, ou da igreja católica ou da figura de um papa sábio para a humanidade? Preciso responder? Claro que não, você já tem a resposta.

No início do pontificado de Bento XVI eu fui um grande opositor e crítico ferrenho da figura dele, e escrevi alguns textos contra esse pontífice aqui no blog. Agora, sobre a sua renúncia ao papado, e não importa para mim o motivo da mesma, quero dizer-vos que o admirei profundamente. Sei que a igreja católica tem todos os defeitos de uma igreja (assim como todas as igrejas), e sendo a igreja enorme que ela é, defeitos ainda mais terá: Escândalos sexuais, fraudes financeiras... Bem, sempre costumo dizer: "Entre Deus e o Ministério está o homem. E onde está o homem, aí estão todos os problemas." Imagine uma sociedade (país) onde cada um faz o que bem quer e o que bem entede da sua vida, sem respeitar as leis e a constituição. Assim é o país chamado Vaticano. Os seus cidadãos são como cidadãos de qualquer outra nação: Falhos, corruptos, inconsequentes... Tanto os que estão dentro, quanto os que estão fora do país (quero ressalvar os homens e as mulheres de bem, honestos e éticos). É claro que toda igreja, seja ela um "país" ou não, deve  ter transparência e ética. Deve reconhecer as suas falhas e enfrentar os seus problemas sem maquiagem.


Para fechar o assunto sobre a renúncia de Joseph Ratzinger, penso que ele agiu sabiamente. Um homem com mais de oitenta anos, precisa de paz e sossego. A ICAR tem muitos desafios e problemas pela frente, inclusive a revisão do "Dogma da Infalibilidade Papal". Não é porque João Paulo Segundo ficou na cátedra até a morte que ele tem que ficar também. Quem sabe a função de "cargo vitalício" dos futuros papas não seja revista, e os próximos papas fiquem apenas dez anos no comando da igreja, e quem sabe, os cardeais repensem a nessecidade de eleger um papa mais novo na próxima terça feira? O Vatiticano é o menor país do mundo, mas que possui uma população (de católicos) entre as maiores nações do mundo, esperando pelo anúncio do cardeal protodiácono e decano: "Habemus Papam."

A Venezuela de Hugo Chaves

Hugo Chaves, um oficial militar que tentou tomar o poder à força na Venezuela em 1992, foi eleito presidente daquele país em 1998, está sendo velado, venerado e adorado pelo povo de sua nação, por aproximadamente dez dias.

Em minha opinião o Chaves foi um louco perigoso que se aproveitou de um momento de fragilidade do país e do povo, e tal qual o lider nazista Hitler, ele chegou ao poder com ideias perigosas e manipuladoras. É realmente impressionante como um lider carismático pode conduzir quase uma nação inteira ao fanatismo e à cegueira. Chaves "declarou guerra" aos EUA, chegando ao ponto insano de dizer que os líderes latinos americanos, inclusive ele, estavam sendo "infectados" com algum tipo de vírus cancerígeno pelos Estados Unidos, e há quem acredita nisso. Há pouco comentei na nossa Fan Page Educação Cultura e Sociedade que Goebels, ministro da propaganda nazista tinha orgulho em dizer que "uma mentira repetida várias vezes se trorna verdade." Nesse mesmo texto também comentei que "Para os perversos, exterminar alguém é muito fácil, tudo o que eles precisam é de pessoas com fé para creditar no que dizem."

Como um perverso como o Chaves  que se diz o "paladino do povo" extermina esse mesmo povo? É simples: Iludindo-os, alienando-os, destruindo neles a capacidade de pensar por sí só, destruindo  a capacidade de questionamento e de interpretação, gerando fanatismo e adoração, tornado-os alienados políticos e sociais... Fanatismo cego, irracional que faz o povo sair de longe e acampar diante de um corpo falecido, por longas horas e até dias, sem água, sem comida, desmaiando de calor, fome e mal estar. Agora, esse mesmo corpo será embalçamado e ficará exposto para ser venerado e adorado, assim como foi em vida. Tudo isso tem um motivo e uma razão: A manipulação política e eleitoreira de Nicolás Maduro, que é um sujeito "verde" para governar um país cheio de problemas econômicos e sociais, como é a Venezuela. Maduro é uma "cópia verde", mal  feita, mal acabada e borrada do Chaves.

O Chaves com suas ideias perigosas era carismatico, coisa que o Nicolás Maduro não é. Ele vai tentar proseguir com o "chavismo" e com o "bolivarismo", que o próprio povo já está chamando de "doutrina bolivarista", porque na verdade é mesmo uma doutrina. Doutrina que não aceita e não permite oposição nem ideias contrárias, que castra a liberdade de expressão, assim como é em Cuba. Essa doutrina é uma doutrina perversa capaz de dividir uma nação inteira, e de jogar irmão contra irmão... Por conta dessa doutrina, uma jornalista foi espancada em frente ao hospital onde o Chaves estava. Doutrina é sempre algo perigoso e geralmente dá origem às piores guerras. Doutrinas cegam as pessoas e se transformam em religiões perversas, que repito: "a religião divide e separa mais do que re-liga." Por isso não gosto de doutrinas.

Inocentes foram os que pensaram que com a morte de Hugo Chaves a Venezuela estaria livre. O país está mais acorrentado e enclausurado que nunca, e para não perder o foco teológico, eu diria que só um milagre poderá salvar o povo do chavismo e do bolivarismo nesse momento. A constituição naquele país foi rasgada, o golpe de estado foi estabelecido, e o povo apoia essa sandice. A maioria não quer ser "salva". O que muito eu estranho é que a comunidade internacional não se manifestou contra essa sórdida e oportunista atitude dos chavistas.

Para fechar esse assunto eu quero dizer para a Dona Dilma "presidenta" do Brasil que o Chaves pode ser amigo dela, do Lula e do Zé Dirceu, mas não é meu amigo, e nem eu sou amigo dele. Eu sou parte do povo brasileiro  e nunca vi o Chaves fazer nada pelo povo brasileiro. Ele não fez nem pelo povo dele... Ir à televisão com um discurso mequetrefe e dizer que "o presidente Chaves é amigo do povo brasileiro" é uma mentira muito feia e deslavada.

O Brasil da Dilma

O Brasil de Dilma Roussef caminha chafurdado na violência, cheio de problemas de in-segurança pública, falhas gravíssimas na educação, na saúde e na economia. Para maquiar tudo isso e mais um pouco a "presidenta" anuncia a queda no preço da energia  e logo em seguida percebemos que quem caiu mesmo fomos nós... A inflação está cada vez mais alta e as donas de casa sabem disso melhor que ninguém.




No Dia Internacional da Mulher a "presidenta" veio a plúblico em rede nacional de televisão anunciar a retirada dos impostos de alguns produtos da cesta básica. No entanto, está sendo duramente criticada por ter vetado essa proposta que partiu da bancada do PSDB, e que agora está "posando de boazinha" para o povo brasileiro, em especial para as donas de casa e para as mulheres em geral, com um discurso cheio de "emoção" para conquistar o coração emotivo da mulher (sem discernimento) brasileira. Ora, roubando ou não, a ideia do PSDB (e que diga-se de passagem é uma ideia muito boa), a Dilma está dando visivelmente um golpe eleitoreiro de olho na eleição de 2014.

O que toda mulher (e homens) do Brasil gostaria de ouvir da "presidenta", principalmente as famílias vítimas da violência, é que o Brasil baixou o limite da maior idade, e que os criminosos com 12 anos para cima vão para a cadeia, e serão julgados e condenados por seus atos hediondos. O que todos nós, homens e mulheres do Brasil queremos ouvir, ver e saber é que bandidos que praticam violências contras as mulheres, contra os mendigos e contra toda a sociedade vão responder pelos seus crimes, e que todos os criminosos hediondos, sem excessão alguma, serão condenados com no mínimo trinta anos de cadeia, e não vão sair de lá sem cumprir pelo menos noventa por cento do tempo de prisão determinado para eles...

Queremos ver e saber que os mensaleiros, sejam eles do PT ou do PSDB ou de qualquer outro PODER, serão presos e terão que devolver cada centavo que roubaram, com juros e correção monetária. Queremos ver, saber, ter e usufruir de uma saúde pública de qualidade a altura dos impostos que pagamos. Não queremos ficar jogados no corredor de um hospital sujo, empoeirado e calorento, abandonados e ignorados, cheios de dores como eu já fiquei. Queremos escolas equipadas, educação de qualidade, professores preparados e bem remunerados... Queremos todos os profissionais desse país ganhando dignamente, não somente os políticos e os magistrados que estão lá para legislar e fazer cumprir a lei, mas que não o fazem por que sabem que essas leis poderão ser carrascas deles mesmos ou de alguns dos seu descendentes. Leis severas no Brasil são perigosas para a maioria dos políticos, homens (e mulheres) públicos, visto que essas mesmas leis podem aprisioná-los, tendo em vista que a corrupção e a criminalidade são as marcas de muitos deles. Quero ressalvar aqui também, as mulheres e os homens  públicos de bem, justos, dígnos, éticos e honestos.

Então, sou a favor de que se retire os impostos da cesta básica sim, mas quero também a reforma tributária no país, a reforma política, a revisão do código penal brasileiro, a desobrigatoriedade do voto... Democracia plena se faz com liberdade de expressão, com voto facultativo, com justiça social, entre muitas outras coisas. Quero um pais dígno para mim, para e para todos brasileiros. Não quero ser amigo de ditadores e lunáticos como o Hugo Chaves.

O mundo

Enquanto muitas coisas acontecem no Vaticano, na Venezuela e no Brasil, muitas coisas acontecem também no mundo. Entre essas coisas, estamos vendo a luta do presidente Barack Obama tentando desarmar a nação americana, o Egito em conflitos constantes, a Coreia do Norte desafiando os Estados Unidos com seus mísseis, e isso pode ser preocupante, pois nunca sabemos o tamanho e as proporções que um conflito desses pode chegar, e tudo o que o mundo não precisa, nem agora e nem nunca mais, é de uma guerra mundial. Bastam as guerras locais!


O Irã por sua vez tem também um louco no poder, que atende pelo nome Ahmadinejad, que foi aplaudidíssimo no velório do Hugo Chaves. O Ahmadinejad também é amigo do Lula. Me parece que o Lula não sabe muito bem escolher os seus amigos políticos: Fidel e Raul Castro, Hugo Chaves, Mahmud Ahmadinejad, Evo Morales, as "figurinhas do Mensalão"... Uma parte é constituida de ladrões, outra parte são lunáticos em busca de guerra e de oprimir o povo. É claro que deve ter gente boa nesse meio, e faço questão de ressalvá-los também. Se o Lula estivesse no poder ainda, talvez ele faria aliança com a Coreia do Norte, e se o Hitler e o Napoleão Bonaparte fossem vivos, com certeza eles seriam amigos do Lula também. Estamos sentados sobre um barril de pólvora pronto para explodir.

Austri Junior
Editor do Blog

domingo, 3 de março de 2013

O relojoeiro

Conto
Por Austri Junior

O Big Ben soou doze badaladas... Era meia-noite.
Na escuridão da noite fria londrina ouviu-se o ranger de dobradiças antigas e enferrujadas, vindo de uma pesada porta de madeira antiga e de um sobrado velho, cujas paredes eram muito sujas, apresentando algumas trincas. Uma parca sombra masculina projetou-se na parede do prédio em frente. Sombra essa causada pela pobre e fraca luz que vinha do lampião do único poste que havia na rua, e que iluminava toda aquela redondeza. Trajado totalmente com a cor preta, cujo propósito era mesmo confundir-se com a escuridão noturna, e nela camuflar-se, aquela figura cujo rosto não se podia identificar usava uma indumentária composta de terno, cartola e capa. Um detalhe chamava a atenção: A calça e as botas eram próprias para caçadas. Aquela figura sinistra, cujo rosto não se podia ver, caminhava pelas ruas escuras e perigosas dos guetos de Londres, onde nessa hora da noite, não havia mais ninguém nas ruas. As poucas pessoas que ainda podiam se ver a caminhar eram as prostitutas, os bêbados e os mendigos. Entre eles, pessoas mal intencionadas, como os ladrões e os assassinos. Esses não eram tantos, mas eram o suficiente para levar perigo a quem por essas ruas caminhassem. E o nosso misterioso personagem agora fazia parte desse cenário.

O dia mal amanhecera e as pessoas já podiam ouvir a voz do vendedor de jornais, que aos berros anunciava a manchete do dia:

- Extra, extra! Leiam agora: "Mais uma mulher assassinada"!

Mulheres assassinadas na Londres antiga, em geral eram imigrantes, vindas da Rússia e de outros países europeus em crise financeira e ali chegando, essas mulheres muitas vezes optavam pela prostituição, para conseguirem sobreviver. Isso deu inicio a muito problemas sociais. Contudo, esse fato já era um assunto banal e corriqueiro, porque Todos ali já ouviram falar do famoso Jack, o estripador de Londres. As prostitutas sempre foram alvo da ira de maníacos, assassinos, puritanos e moralistas.

A mesma porta de madeira pesada e antiga no mesmo sobrado velho se abrira nessa manhã, revelando a saída de uma figura masculina, trajando um belo terno de linho, branco, e uma cartola preta estava sobre a cabeça do homem. O Sol de primavera iluminava toda a rua, e Mr. Collins, um cidadão muito respeitado, saíra porta a fora, enquanto esta era fechada atrás de si, e caminhava rumo ao centro da cidade, dentro do seu elegante terno de linho branco, na bôca, um lindo cachimbo de marfim, na mão direita uma linda e luxuosa bengala de marfim cravejada com alguns pequenos diamantes. De longe ele podia ouvir os berros do jornaleiro: "Extra, extra..." Ao entrar na rua principal que dava acesso à sua relojoaria, Mr. Colluins checou as horas, no seu relógio de bolso de ouro maciço, 18 quilates. Ao levantar os olhos avistou o jovem e agitado jornaleiro, que de um lado ao outro da rua, continuava bradando:

- "Extra! Leiam nessa manhã: Mais uma mulher assassinada em Londres"!


Mr. Collins chamou o rapazinho e pediu-lhe um jornal, no que foi prontamente atendido:

- Bom dia Mr. Collins!

- Bom dia Charles.

- Está um lindo dia hoje, o senhor não acha?

- Está sim, Charles.

- Aqui está o seu jornal, senhor.

- Obrigado. Respondeu o relojoeiro, colocando a luxuosa bengala em baixo do braço esquerdo, e enfiando a mão direita no bolso da calça, apanhou uma moeda e entregou ao jovem.

- Mr. Collins...

- Sim, Charles.

- O senhor já vendeu aquele relógio?

- Ainda não. Ele ainda está lá.

- O senhor não me faria um desconto? Já juntei quase todo o dinheiro, e só está faltando um shilling...

- Não! O relógio está la e será de quem o comprar primeiro.


O relojoeiro virou-se, caminhou até a sua loja, abriu a porta, adentrou ao recinto, abriu um armário que estava trancado a chave, pendurou dentro dele a linda bengala com seus diamantes nela cravejados, trancou novamente o móvel e voltou a guardar a chave no bolso direito do paletó. Caminhou até um canto da loja, de onde podia ver a porta de entrada, e o movimentação na rua através da vitrina, então, pôs-se a ler o jornal. Ao ler os detalhes do assassinato da madrugada anterior, narrados pela polícia, deparou-se defronte a uma importante informação: "Devido as proporções dos ferimentos, constatamos sem sombra de dúvida que o assassino desferiu os golpes com uma faca, usando a mão esquerda, como das outras vezes", disse o inspetor de polícia na entrevista ao repórter. Diante desse fato, recostou a cabeça no encosto da sua cadeira de balanço antiga, feita de Pau-Brasil, e disse para si mesmo:

- Uma a menos! Limparei essa cidade da imoralidade, mesmo que tenha que gastar toda minha fortuna. Afinal estou pagando muito bem ao "Canhoto"...


Mal o relojoeiro acabou de pronunciar a sua frase, o cachimbo de marfim caiu da sua mão, os olhos se fecharam e a cabeça pendeu para o lado esquerdo, Um infarto fulminante lhe tirara subitamente a vida. Ele não viveu para "limpar" as ruas de Londres, e agora, a sua fortuna não servirá mais ao moralismo e não mais será a juíza e a carrasca da sociedade. O Criador interrompera os  atos malignos de Mr. Collins e o chamara a prestar contas de todos eles.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Breve comentário sobre a Educação Integral em Vitória-ES

Educação Integral
Por Austri Junior

Como comentei anteriormente, no post sobre a Educação Integral em São Paulo, estarei postando artigos sobre a Educação Integral no Brasil - especificamente sobre a Educação Integral nas escolas públicas - oriundos de pesquisas na internet, até culminar com um artigo de minha própria autoria, onde tecerei comentários sobre a minha experiência com a Educação Integral nas escolas da Prefeitura Municipal de Vitória, ES. Como disse também, farei algumas revelações interessantes.

Como a Educação Integral é a minha área de atuação, fico muito a vontade para tratar do tema, e evidentemente, fazer comparações e comentários segundo a minha visão. Estou aguardando o desenrolar dos fatos em Vitória, pois com a mudança de gestão, muitos boatos e nenhuma certeza rondam o "Tempo Integral" nos dias de hoje, dentro das escolas. Uns dizem que vai acabar, outros dizem que vai mudar... 

Uma coisa é certa e já posso adiantar a minha opinião - que não é nenhuma novidade para os leitores que me acompanham desde 2008 aqui no blog: Se o programa em Vitória acabar, será muito bom. Se mudar (para melhor) será ótimo! Do jeito que está não pode continuar. Por enquanto, desde a sua implantação nas escolas da rede municipal de Vitória (2008), a Educação Integral (conhecida aqui com Tempo Integral, ou como "peti"), é uma grande cortina de fumaça, e um simples programinha eleitoreiro. Essa cortina de fumaça é proveniente da BOMBA que é esse pseudo  programa. O funcionamento é arcaico, um grande engodo...

A proposta do programa parece boa, mas a essência é péssima, e para piorar os fatos muitos profissionais que estão à frente do programa são verdadeiros enganadores e preguiçosos, que só têm interesse no contracheque no fim do mês.

A grande maioria dos professores da rede municipal de Vitória chamam esse pseudo programa de "TEMPO INFERNAL", algumas pessoas ao escreverem algo relacionado ao programa, escrevem a palavra "PET ", mas nesse caso é por ignorância mesmo. Entretanto, é assim mesmo que as crianças do "peti" são tratadas em algumas escolas: Como animais. Infelizmente!

Abaixo, os leitores encontrarão postagens sobre a Educação Integral no Estado do Rio Grande do Sul. Futuramente postarei sobre a Educação Integral também em minas Gerais e no Paraná, entre outros lugares do Brasil. Acesse também:

Austri Junior
Editor













domingo, 17 de fevereiro de 2013

A espera

Conto
Por Austri Junior

O sol começava dar sinal de que iria despontar em breve. Da praia, uma jovem moça olhava fixamente para o horizonte, donde podia ver a junção do mar com o céu, e entre nuvens que iam desde um tom cinza mais claro, até um tom mais escuro, e em algumas partes, tudo estava muito escuro, pois havia chovido muito durante a madrugada. Eram cinco horas da manhã, e ela já estava alí, com um "olhar comprido" mirando atentamente ao longe, enquanto as ondas do mar bravio, arrebentavam na areia. Juliana, môça bonita, de tez morena, de olhos grandes e amendoados, cabelos negros e lisos, já se encontrava nessa angustiosa espera desde as quatro horas da manhã. Durante esse tempo, Juliana caminhava de um lado a outro, vez em quando abaixava-se pegava uma estrela marinha e devolvia-a de volta ao mar, outras vezes, ecrevia algo na areia, ou então densenhava alguma coisa com uma varinha que apanhara alí na praia... Tudo quanto alí escrvia ou desenhava tinha a ver com o seu amor pelo "João da Canoa".

O João da Canoa recebera esse apelido ainda na  infância, pois quando moleque vivia roubando as canoas dos pescadores para dar uma "voltinha" pelos canais de mangues da Ilha das Garças(*), lugarejo que concentrava uma grande colônia de pescadores, e onde vivia com sua família. A sua mãe era catadora de caranguejos, e o seu pai era pescador. O João desde de tenra idade, contribuia  com a economia doméstica. Junto às irmãs, ajudava a sua mãe na cata de caranguejos nos manguesais da ilha, mas o que ele queria ser mesmo, era pescador como o seu pai, o Zé Catraeiro, o melhor pescador da região.

Juliana também era filha de pescadores, e durante a infância, enquanto o seu pai estava no mar, ela e os irmãos também catavam caranguejos com a mãe, assim como todas as famílias do lugar. Os habitantes da ilha pescavam tradicionalmente desde os seus antepassados, e em suas embarcações levavam tudo para o continente para vender ou trocar por provisões, aquelas que eles não tinham como plantar, ou produzir em seus próprios terrenos. A Ilha das Garças é um muito lindo lugar, habitado por gente pobre, humildes trabalhodras. Gente honesta e sonhadora que desejam uma vida melhor, e por isso trabalham incansavelmente, enfrentando os perigos da natureza, com muita coragem, bravura e determinação...

Como ninguém está livre das tragédias, principalmente as gentes pobres, Juliana  enquanto esperava na praia, pelo seu grande amor - eles namoravam desde a adolescência -  não conseguia deixar de pensar na trágica perda familiar, envolvendo de uma só vez a morte do seu pai, de um irmão, de dois tios, e do seu sogro, o João Catraeiro, de uma só vez, quando três anos atrás (ela ainda com dezessete anos e o seu namorado João com dezoito), saíram para o alto mar e foram surpreendidos por terrível e brava tempestade, e nunca mais retornaram. As embarcações de busca acharam somente destroços do barco de pesca em que estavam. Por isso a aflição da moça, que andava de um lado para o outro... As vezes se asentava em um tronco de árvore velho, que repousava deitado na praia, rezava com toda fé do mundo e pedia proteção para o marido João, enquanto fazia promessas, caso este chegasse em casa com vida. Pedia a Deus que permitisse ao marido ver o primeiro filho deles, que estava para nascer em apenas algumas semanas.

Por volta das seis horas da manhã, com o céu claro e poucas nuvens escuras espaçadas lá no alto, e o sol já esquentando a sua pele, Juliana agora acompanhada de outras aflitas esposas, mães e filhas, levantou a cabeça e foi então que viu, quando o barco do João brilhou lá longe. O sol com seus raios límpidos e lumimosos fazia refletir o mastro de alumínio da embarcação, aumentando as esperanças das famílias que alí estavam à espera dos seus queridos, enquanto o barco se aproximava da praia seguido por um grande bando de belas e brancas gaivotas. Bom sinal!

Mal o barco chegou à praia, o João pulou n'água e veio nadando ao encontro da sua amada. Juliana também lançou-se nas águas do mar agora mais mansas, cheia de saudades, em um mixto de euforia e alívio, caminhando contra as ondas que banhavam a sua barriga, e ao se encontrarem no meio do caminho, beijos, abraços e choros de felicidades. Juliana sentiu o bebê mexer dentro de si, e pensou: Graças a Deus!

(*) Nome fictício