domingo, 21 de abril de 2013

Eu, um rato de biblioteca!


Conto 
Por Austri Junior
(Homenagem à minha Professora da 5ª série, Maria de Lourdes)

Sempre fui fascinado pela leitura! Desde que aprendi a ler, não me afastava dos gibis: Super Homem, Homem Aranha, Batman, O Demolidor, Tex, Top Secret, foto novelas da revista Capricho, Almanaque Disney, Turma da Mônica... Bons tempos!

Aos onze anos de idade tive uma professora de português, maravilhosa, professora Maria de Lourdes, nunca a esqueci, e jamais poderei esquecê-la. A professora De Lourdes era uma senhora de fala mansa, gestos brandos, atitudes super calmas. O seu olhar era um olhar de ternura e compreensão. Jamais levantara a voz para nenhum de nós e nunca mandou nenhum aluno para a coordenação ou para a sala da diretora, a Dona Amália, da qual todos nós morríamos de medo. Só de ouvir falar: "Dona Amália vem aí", nós todos ficávamos paralizados.

A "Dona de Lourdes" - era assim que a chamávamos - usava para conosco uma dinâmica fantástica de leitura e escrita. Estávamos na 5ª série (hoje sexto ano), e algumas semanas após ter se iniciado as aulas, a Dona de Lourdes após ter feito a chamada, perguntou-nos (como se não já soubesse a resposta):

- Quem aqui, gosta de ler histórias em quadrinhos, levante a mão?

Todos na sala, evidentemente levantaram as mãos. Então ela disse-nos:

- Turma, eu tenho uma proposta para fazer para vocês: Que tal vocês criarem os seus próprios personagens e escreverem as suas próprias  estórias, não em forma de quadrinhos, mas em forma de narrativa, uma redação. Niguém é obrigado a fazer, mas os que fizerem ganharão um ponto, e os que lerem as suas estórias para a classe, ganharão dois pontos, e uma vez por semana, toda terça-feira, nós faremos as apresentações. O que vocês acham?

A maioria dos alunos que estavam na  sala vibraram com a ideia da Dona de Lourdes. Passada a euforia, um medo enorme se apoderou de nós. Não sabiamos o que fazer nem como fazer e levamos as nossas angústia até a professora, que nos acalmou e disse:

- Não se preocupem! Eu ajudarei vocês. Façam a primeira estória e tragam-na para mim na próxima terça-feira, e a partir daí nós vamos aprendendo juntos...

Aquilo  que a professora De Lourdes estava fazendo conosco não tinha prêço, e não tem até hoje. Foi a partir daí que desembrestei a escrever e aumentar ainda mais o meu gosto pela leitura, e comecei a madurecer, pois além das redações que agora escrevíamos como quem brincava na praça (e antes disso, morríamos de medo de escrever redações), líamos os livros "obrigatórios" com muito gosto. Essas "leituras obrigatórias", eram angustiantes pois tínhamos que ler o livro e fazer prova, era um livro por mês. A  professora mudou a didática, e nós não fazíamos mais a prova, agora nós falávamos sobre o livro: A estória, os personagens, os locais, as emoções, tudo o que vivenciávamos na estória, no livro durante a leitura... Lembro-me como se fosse ainda hoje, e jamais esqueci os livros que li. A maioria deles era da Editora Ática e da Coleção Vagalume. Entre eles: "A Ilha Perdida", "Éramos Seis", "O Cachorrinho Samba"... Nunca mais, nós os alunos da professora Lourdes, fomos os mesmos. No fim do ano, todos estavam escrevendo e lendo em sala de aula as nossas próprias estórias e construindo os nossos próprios personagens.

Além dos livros obrigatórios, eu lia por minha própria conta (correndo por fora), outros livros que tomava emprestado na Biblioteca Estadual e na Biblioteca Municipal. Tornei-me um "rato de biblioteca", amava e amo até hoje aquela atimosfera silenciosa que reinava dentro das bibliotecas - as pessoas respeitavam o ambiente de leitura - hoje as bibliotecas são muito barulhentas. Amava e ainda amo o cheiro de papel velho, e a combinação do cheiro de tinta em papel novo. Não troco o livro por nada, mesmo sabendo que se derrubam algumas árvores para construir alguns livros - a solução é plantar árvores com o objetivo de usá-las somente na fabricação dos livros - Amo o velho e bom livro. Amo a boa e maravilhosa leitura!

Ao começar a frenquentar as bibliotecas para ler por amor à leitura e pela paixão pelos livros, e não somente para fazer  pesquisas para trabalhos e para os deveres de casa - naquela época não havia a internet e eu era uma criança muito pobre, e a minha mãe não tinha dinheiro para comprar a Coleção Barsa e nem a Coleção Delta la Rousse - eu pude contemplar leituras clássicas maravilhosas da literatura internacional tais como: "A Ilha do  Tesouro", "Robinson Cruzoé", "Peter Pan", "David Copperfield", "A Família Robinson", "O Pequeno  Principe", "O Menino do Dedo Verde", "O Maior Presente do  Mundo", "Fernão Capelo Gaivota", "Longe é Um Lugar Que Não Existe"... E mais tarde: "Um Brasileiro no Exército de Napoleão" , "Horiizonte Perdido", "Ladrão na Noite", e todos os livros de T. Lobsang Rampa, entre muitos outros...

Tudo o que leio hoje, todas as pesquisas científicas e acadêmicas que faço, e tudo o que escrevo (até mesmo as besteiras), só faço por que um anjo me iluminou. Seu nome? Repito: Professora Maria de Lourdes! Muito do que sou hoje, devo a esse anjo. Quantas Marias de Lourdes existem ainda hoje? Professores assim ressignificam as vidas dos seus alunos, e podem ajudá-los a construir um futuro muito melhor e mais promissor. Foi por causa da "Dona de Loudes" que eu hoje sou um "rato de biblioteca". Ela me deu isso, e hoje eu passo a diante. Me esforço para ser a "Dona de Lourdes" na vida dos alunos cuja vida cruzam com a minha vida. Ler é tudo de bom!

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