domingo, 17 de fevereiro de 2013

A espera

Conto
Por Austri Junior

O sol começava dar sinal de que iria despontar em breve. Da praia, uma jovem moça olhava fixamente para o horizonte, donde podia ver a junção do mar com o céu, e entre nuvens que iam desde um tom cinza mais claro, até um tom mais escuro, e em algumas partes, tudo estava muito escuro, pois havia chovido muito durante a madrugada. Eram cinco horas da manhã, e ela já estava alí, com um "olhar comprido" mirando atentamente ao longe, enquanto as ondas do mar bravio, arrebentavam na areia. Juliana, môça bonita, de tez morena, de olhos grandes e amendoados, cabelos negros e lisos, já se encontrava nessa angustiosa espera desde as quatro horas da manhã. Durante esse tempo, Juliana caminhava de um lado a outro, vez em quando abaixava-se pegava uma estrela marinha e devolvia-a de volta ao mar, outras vezes, ecrevia algo na areia, ou então densenhava alguma coisa com uma varinha que apanhara alí na praia... Tudo quanto alí escrvia ou desenhava tinha a ver com o seu amor pelo "João da Canoa".

O João da Canoa recebera esse apelido ainda na  infância, pois quando moleque vivia roubando as canoas dos pescadores para dar uma "voltinha" pelos canais de mangues da Ilha das Garças(*), lugarejo que concentrava uma grande colônia de pescadores, e onde vivia com sua família. A sua mãe era catadora de caranguejos, e o seu pai era pescador. O João desde de tenra idade, contribuia  com a economia doméstica. Junto às irmãs, ajudava a sua mãe na cata de caranguejos nos manguesais da ilha, mas o que ele queria ser mesmo, era pescador como o seu pai, o Zé Catraeiro, o melhor pescador da região.

Juliana também era filha de pescadores, e durante a infância, enquanto o seu pai estava no mar, ela e os irmãos também catavam caranguejos com a mãe, assim como todas as famílias do lugar. Os habitantes da ilha pescavam tradicionalmente desde os seus antepassados, e em suas embarcações levavam tudo para o continente para vender ou trocar por provisões, aquelas que eles não tinham como plantar, ou produzir em seus próprios terrenos. A Ilha das Garças é um muito lindo lugar, habitado por gente pobre, humildes trabalhodras. Gente honesta e sonhadora que desejam uma vida melhor, e por isso trabalham incansavelmente, enfrentando os perigos da natureza, com muita coragem, bravura e determinação...

Como ninguém está livre das tragédias, principalmente as gentes pobres, Juliana  enquanto esperava na praia, pelo seu grande amor - eles namoravam desde a adolescência -  não conseguia deixar de pensar na trágica perda familiar, envolvendo de uma só vez a morte do seu pai, de um irmão, de dois tios, e do seu sogro, o João Catraeiro, de uma só vez, quando três anos atrás (ela ainda com dezessete anos e o seu namorado João com dezoito), saíram para o alto mar e foram surpreendidos por terrível e brava tempestade, e nunca mais retornaram. As embarcações de busca acharam somente destroços do barco de pesca em que estavam. Por isso a aflição da moça, que andava de um lado para o outro... As vezes se asentava em um tronco de árvore velho, que repousava deitado na praia, rezava com toda fé do mundo e pedia proteção para o marido João, enquanto fazia promessas, caso este chegasse em casa com vida. Pedia a Deus que permitisse ao marido ver o primeiro filho deles, que estava para nascer em apenas algumas semanas.

Por volta das seis horas da manhã, com o céu claro e poucas nuvens escuras espaçadas lá no alto, e o sol já esquentando a sua pele, Juliana agora acompanhada de outras aflitas esposas, mães e filhas, levantou a cabeça e foi então que viu, quando o barco do João brilhou lá longe. O sol com seus raios límpidos e lumimosos fazia refletir o mastro de alumínio da embarcação, aumentando as esperanças das famílias que alí estavam à espera dos seus queridos, enquanto o barco se aproximava da praia seguido por um grande bando de belas e brancas gaivotas. Bom sinal!

Mal o barco chegou à praia, o João pulou n'água e veio nadando ao encontro da sua amada. Juliana também lançou-se nas águas do mar agora mais mansas, cheia de saudades, em um mixto de euforia e alívio, caminhando contra as ondas que banhavam a sua barriga, e ao se encontrarem no meio do caminho, beijos, abraços e choros de felicidades. Juliana sentiu o bebê mexer dentro de si, e pensou: Graças a Deus!

(*) Nome fictício

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