segunda-feira, 12 de maio de 2014

O oco preenchendo o vazio - Uma reflexão sobre a violência e o comportamento humano sob um "Olhar Teológico"

Teologia
 
Austri Junior - Editor









Não sou sociólogo e nem historiador, mas o que me aproxima dessas duas áreas do conhecimento são a minha paixão pela história e pela sociologia, o meu interesse pelos seres humanos e o fato de ser um teólogo que caminha pela teologia social, pela teologia da educação, pela teologia da libertação e pela história do pensamento cristão. Com isso aprendi a ver tudo com um "Olhar Teológico" para tentar compreender os fatos e as pessoas. Onde há gente, há teologia!



Estamos assistindo perplexos à tantos casos de violência em nosso pais, cada uma mais escabrosa que a outra. A moda de outrora voltou: fazer "justiça" com as próprias mãos. Nos primórdios da existência humana a terra era um lugar difícil e perigoso, tudo em volta formava um ambiente hostil à vida humana. Além dos perigos naturais como as bestas feras, existiam o perigo de se encontrar com tribos rivais, ou de ser atacadas por elas. O homem andava em bandos, dormiam em árvores e não fixava moradia em lugar algum, buscando por alimentação, proteção e segurança. O tempo foi passando, os seres humanos foram evoluindo, a civilidade foi surgindo de forma gradativa. Os traços rudes que aproximavam o homem de animais selvagens foram desaparecendo, e o homem conheceu o que é cortar o cabelo e fazer a barba, deixando de ser mais peludo. Foi-se desenvolvendo hábitos de higiene pessoal, como tomar banho, escovar os dentes, usar produtos de higiene, não sem antes deixar de ser nômade e fixar residência em algum lugarejo. Tudo foi acontecendo gradual e lentamente, durante séculos de existência e civilização humana. Tudo isso aconteceu na história da raça humana, mas há algo que me chama a atenção: o homem sempre esteve envolvido em conflitos e todo tipo de violência, principalmente a violência física. Há um provérbio popular pós moderno  que diz: "É fácil tirar o homem de dentro da favela. Difícil é tirar a favela de dentro do homem." O que há de verdade nisso? Tudo! Com a evolução da civilização vieram muitas coisas boas. O homem criou e inventou métodos de sobrevivência, e entre tantas coisas maravilhosas, também desenvolveu a religião, e há quem possa perguntar: "E a religião é uma coisa boa?" A verdade é que com religião ou sem religião o homem não conseguiu superar a sua natureza humana e com isso, não conseguiu dominar a pior característica dessa natureza: a violência! Muitas e muitas guerras foram e continuam sendo feitas em nome de Deus. Muitas torturas e mortes foram executadas em nome de Deus. Falcatruas, corrupções e roubos continuam sendo feitos em nome de Deus...

Muitas vidas foram sacrificadas e ceifadas para para que alguns homens pudessem fazer as suas grandes conquistas, no mundo inteiro, em todos os tempos. Tribos nômades e dentre eles os hebreus que outrora sofreram vários momentos de escravidão em sua história, para retomar as suas vidas e chegar à terra prometida, saquearam aldeias e quando se estabeleceram como nação também escravizaram pessoas. Antes deles, outras tribos e povos já faziam isso, e sempre foi preciso que reis, líderes e autoridades elaborassem leis como o código de Hamurabi, do qual muita coisa se encontra nas leis judaicas, incluindo os dez mandamentos da lei de Moisés por exemplo, cuja originalidade, paira enorme dúvida histórica e acadêmica. Sabemos que na antiguidade havia algo comum chamado despojos de guerra e que faziam parte dos despojos, além de objetos de valor e os animais, também a vida humana. Quem perdia a guerra era levado como prisioneiro, ou para ser escravizado, ou vendido como escravo, e algumas vezes para serem mortos em praça pública com requintes de crueldade só para divertir às pessoas. Quando os guerreiros matavam os homens sobreviventes no próprio local onde se dera o conflito, não abriam mão de levarem as mulheres mais jovens para servirem de escravas sexuais para si, ou para serem vendidas. Muitas tribos e povos invadiam o território vizinho apenas com o objetivo de roubar mulheres. A mulher não possuía nenhum valor humano e nem mesmo social, mas era uma "mercadoria" fácil de vender, e por ser mais frágil estava à mercê da violência masculina dentro e fora de casa. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência. Estamos há trinta dias se um sequestro em massa, de mais de duzentas jovens - ocorrido na África - que foram literalmente roubadas em nome de Deus, para serem vendidas como "esposas", ou seja, escravas sexuais. No velho continente, a Europa, guerras e mais guerras aconteceram por posses e propriedades de terras e de seres humanos, e muitos deles em nome de Deus. Quando não tinham mais para onde ir, pois estavam "civilizados", começaram os círculos das grandes navegações e vieram para na América do Norte e depois na América do sul e quase exterminaram os povos que nessas terras já se encontravam, não sem antes terem passado pela Ásia para comercializarem e comprarem os produtos que não possuíam, para mais tarde voltarem e os colonizarem mesmo de forma sutil, como fizeram os ingleses na Índia e na China. Hong Kong é a prova disso. Para conquistar e subjugar os povos das Américas,  deram uma "passadinha" na África e trouxeram os negros acorrentados em porões de navios imundos que mais pareciam pocilgas, para escravizarem, venderem e trabalharem para eles de graça. Fizeram isso por serem perversos e preguiçosos, como os portugueses, por exemplo. Sempre foi assim: a lei do mais forte, do mais rico e poderoso - a violência - prevalecendo sobre os mais fracos e sobre a minoria. Negros, mulheres, crianças e pobres sempre foram subjugados, e mal tratados sem voz e sem vez. Você consegue ver alguma semelhança com os dias de hoje?

Apesar de fazer um giro pelos primórdios da história da existência e da maldade humana quero chegar ao meu objetivo principal, que são os linchamentos e a violência urbana cada vez mais crescente, principalmente aqui no Brasil, e que muitas vezes tem a ajudinha da internet como ferramenta de divulgação. Um caso recente que chocou a população brasileira e às pessoas que ainda possuem bom senso, foi o linchamento de uma dona de casa de cerca de 33 anos, cruelmente assassinada por uma turba energúmena e sanguinária, entre eles, pessoas drogadas, pessoas perversas, ignorantes, loucas e desvairadas, sem nenhum respeito pela vida humana e pela lei. Nada dá à pessoa alguma, o direito de fazer "justiça" pelas próprias mãos. Por mais que o estado seja injusto, ineficiente e inoperante como temos visto nos últimos anos nesse pais, por mais que a pessoa seja culpada, nada justifica um ato de vandalismo e insanidade como esse. As pessoas estão perdendo o  juízo, e estão fazendo juízo dos valores errados, e nesse contexto podemos mencionar algumas situações (entre muitas) responsáveis por tão infame atitude como foi essa perversa crueldade ocorrida no Guarujá:

1) Em primeiro lugar - como esse texto é uma  reflexão sobre o comportamento humano sob um "Olhar Teológico" - quero mencionar a falta de Deus, ou, o afastamento  que as pessoas tomaram de Deus, e quando falo em Deus, não estou falando de religião, de religiosos, e muito menos de religiosidade, pois religiões não tornam nenhuma pessoa melhor, muitas vezes é o contrário. Uma pessoa que precisa de religião para ser decente, idônea, ética, sincera..., em algum momento mostrará quem é de verdade, pois as máscaras sempre caem. Somos todos imperfeitos. Conheço ateus que possuem qualidades que as pessoas que se dizem religiosas não possuem. Então não seria uma contradição dizer que o afastamento que as pessoas tomaram da presença de Deus as tornam piores, se muitos ateus, gnósticos ou agnósticos são pessoas melhores que muitas que apresentam traços de religiosidades? Sim! E o problema está na religiosidade. A religiosidade corrompe, e o pior de tudo é que muitas vezes corrompe em nome de Deus. Contudo, mesmo estando na presença de Deus nós somos todos imperfeitos, e a diferença entre um e outro é que quando a tentação é forte, que tem o Amor de Deus partirá do principio de que Deus sabe o que ele está fazendo, mesmo que ninguém mais saiba, e vai cobrar isso um dia. Dentro desse contexto, escrevendo como teólogo cristão para os cristãos, uma pessoa que possui o Amor de Deus se perguntará antes cometer barbáries: "Cristo faria isso que eu estou querendo fazer?" Então lembrar-se há dos ensinamentos do Mestre. Assim também agirão os seguidores do Buda, e os de Maomé, entre vários outros seguidores de outros tantos mestres que o mundo já produziu. Continua a contradição? Sim e não! Sim porque há ateus que fariam essa mesmo pergunta, mas de modo diferente: "Isso que eu estou querendo fazer é certo ou errado?" E, não, porque não acredito em ateísmo! Sinceramente não acredito que haja ateus. Na ciência da religião aprendemos que o homem é um ser que tem a necessidade de crer em algo, e que possui a necessidade de ligação com alguma entidade divina. E é verdade. O ser humano sempre acreditará em algo ou em alguém, mesmo que seja uma filosofia "qualquer", em um filósofo, em um estilo de vida, em um livro ou em um autor, em sua esposa ou no seu marido, no dinheiro..., no certo ou no errado. Os seres humanos possuem uma característica inerente ao seu espírito doada no ato da concepção através do sopro divino que é a fé. A fé não é algo exclusivo para, ou da religião. Fé tem a ver com acreditar! Sempre acreditaremos em algo, em nós mesmo, na força do trabalho, no amor..., então, a pergunta é: Ateu (de ou em) qual deus? E, mesmo acreditando só no dinheiro, ainda assim estaremos ligados à Deus, pois o dinheiro não é a raiz de todos os males, a ganância e a cobiça sim. Com o dinheiro podemos fazer muitas coisas boas pelas pessoas, ao invés de subjugá-las, dominá-las, humilha-las e ou excluí-las;

2) Em segundo lugar vem a maldade humana. Maldade essa que nenhuma religião ou religiosidade consegue retirar de dentro do homem, mas o Amor de Deus, sim, esse consegue modelar os seres humanos;

3) Em terceiro lugar, essa violência é cultural e religião nenhuma, por mais que tente, não conseguirá suprimir a cultura de um povo. Pode até tentar, mas não perdurará para sempre. O homem sempre voltará às suas raízes;

4) Em quarto lugar, vem a falta da educação. Quem não estuda, não lê, não assiste documentários, noticiários..., não consegue fazer boas análises, não consegue ter um bom discernimento dos fatos, não consegue interpretar os acontecimentos, não consegue se sobrepor sobre a raiva e sobre o ódio, porque não aprendeu pensar. "Um pais se faz com homens e livros", disse Monteiro Lobato. Quem não lê, não pensa, é simples assim! O que as pessoas fazem hoje? Só assistem telenovelas e lixos televisivos, verdadeiros esgotos despejados nas residências, e as emissoras de televisão ao invés de elevar o nível das programações, abaixa-o mais ainda. Quando não estão diante da TV, as as pessoas estão diante do computador jogando ou navegando nas redes sociais, acreditando em tudo o que lá está postado, sem filtrar, questionar, analisar a veracidade ou a qualidade do que estão vendo, lendo e ouvindo. Passam os seus preciosos dias desperdiçando-os, curtindo e compartilhando futilidades, bestialidades, amenidades, fugindo das coisas que os levam à uma reflexão mais intelectual, madura, inteligente, porque pensar dá trabalho e as pessoas estão preguiçosas, preferem o fast food da ignorância que o labor da elaboração intelectual. Isso se dá muitas vezes pelo vazio cultural, educacional, social... Desde 2010 venho travando uma batalha enorme, e estou em campanha, em favor do uso das redes sociais com responsabilidade social. As pessoas estão postando notícias falsas nas redes sociais, estão cometendo barbáries, maldades, atrocidades, irresponsabilidades, buliyng..., e estão postando o vídeo e as fotos na internet, e nós do lado de cá, estamos assistindo, não denunciamos, nos omitimos e muitas vezes contribuímos com uma série de besteirol, curtindo e compartilhando, dando gargalhadas: KKKKK...! A internete é algo fantástico e maravilhoso, além de ser uma ferramenta gratuita. Devemos usá-la para denunciar as coisas que estão erradas. Devemos usá-la para anunciar as coisas boas e compartilhar com as pessoas um mundo onde todos possam curtir  muito mais que fotos e imbecilidades. Temos no mundo dois exemplos maravilhosos (entre muitos outros) que são as blogueiras Yoanes Sanches, que é perseguida pelo governo castrista por denunciar no seu blogue e no seu Twitter, as injustiças que acontecem em Cuba, e Malala Yousafzai que aos treze anos de idade (hoje com 16 anos) criou um blogue para denunciar as injustiças principalmente contra as mulheres no Paquistão. Mas a nossa falta de educação e de cultura nos impedem, o nosso medo nos impedem, a nossa falta de visão nos impedem. Quem fica batendo nessa tecla é o chato e acaba sendo excluído, ou ostracizado, muitas das vezes vira alvo de chacota e de comentários maliciosos. O brasileiro é o povo que passa mais tempo na internet. Adivinhem onde e fazendo o que? No Facebook, bisbilhotando as fotos e a vida dos outros, postando, curtindo e compartilhando besteiras, e dando gargalhadas - KKKKK... O resultado disso é: O oco preenchendo o vazio!

Sem Deus, sem educação, sem amor, sem respeito..., nós não somos nada, e regressaremos ao nosso estado mais primitivo, por mais que a civilização humana tenha avançado e evoluído. Tecnologias não nos fará melhores, ao contrário, estamos nos tornando piores, pois não temos mais tempo para Deus, para a família, para as pessoas, para amar, para desfrutar das coisas boas e importantes. Fugimos do que é primordial e essencial para mergulharmos em superficialidades e futilidades que nos levam à mediocridade da mente e aos conflitos nas relações. Não sabemos compartilhar e curtir um mundo melhor, porque estamos nos tornando alienados, e estamos dando o pior de nós. Estamos construindo um mundo irreconhecível, podre, oco e vazio. A responsabilidade é toda nossa!
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