domingo, 4 de maio de 2014

Uma reflexão social


Conto
por Austri Junior
Revisado e atualizado as 14hs e 14mim.



Norma acordou cedo naquele dia. Ao abrir a janela do apartamento pôde constatar que o dia estava nublado, e uma leve garôa descia do céu. Do alto de sua janela contemplou as folhas das árvores molhadas, e poças d'água se formando nas imperfeições do asfalto. Levantou o olhar e contemplou o horizonte, onde só haviam prédios. Ela gosta dessa paisagem. Poucas são as pessoas que gostam de prédios e apartamentos, mas a norma é uma pessoa incomum, gosta de viver em apartamentos e não se cansa de observar com satisfação os prédios em seu derredor, como uma adolescente apaixonada. Após alguns minutos dirigiu-se ao banheiro, tomou um banho, escovou os dentes, preparou o café e sentou-se à mesa em sua sala, de frente para a janela, e enquanto saboreava um café forte com pouco açúcar, e rosquinhas salgadas, continuava com o olhar estendido para fora do seu apartamento a contemplar o céu nublado, escuro e cinzento. Ela ama quando o dia está assim. Era um dia de sábado, Norma queria aproveitar para descansar e ler um livro, antes de fazer o almoço. Ainda estava em dúvida se aproveitaria o dia para ler sem ter que interromper  a sua tão amada leitura para preparar o almoço, ou se telefonaria e pediria comida no restaurante próximo de sua residência. Resolveu então ler sem se preocupar... Deixaria essa decisão para depois, pois estava encantada com a leitura que começara no dia anterior dentro do coletivo, indo pra o trabalho. Ela sempre aproveitava todos os instantes que tinha disponíveis para fazer o mais gostava e se dedicar ao que mais lhe encantava: a literatura. Estava lendo "Cem anos de solidão". Então leu a manhã inteira e fez uma pausa para o almoço por volta das doze horas. Resolvera comer apenas uma salada, e voltou para a sua leitura e nela se perdeu até as oito da noite. Só se dera conta da hora avançada quando não deu mais ignorar o grito de fome do seu estômago vazio. Levantou-se comeu um sanduíche,  com pão integral 12 grãos, com uma queijo branco e ricota, algumas folhas de alface, e tomate cru. Tomou um banho quente e gostoso, novamente entrou debaixo de um edredom  quentinho tomou o livro em suas mãos, e retomou a leitura até adormecer, depois de ler por mais três horas com afinco.

Norma dormia tranquila e profundamente, quando um barulho na porta da sala a despertou e lhe fez levantar para verificar o que estava acontecendo. Mal abrira a porta do seu quarto que ficava no fundo corredor que dava para a sala, quando avistou dois homens encapuzados no seu apartamento, e um deles portava uma arma cromada na mão esquerda cujo brilho era impossível de não perceber mesmo na penumbra da sala iluminada pela luz do poste que vinha lá de fora. Pensou em correr para o quarto e trancar-se lá dentro mas não foi possível, o homem armado fora mais rápido que o seu pensamento assustado. Foi puxada pelos cabelos, arrastada para dentro do quarto e jogada em cima da cama com muita violência. Assustada, tentou correr para a janela e gritar por ajuda mas foi brutalmente impedida pela violência cruel e desnecessária do líder, que armado, ameaçou mata-la, se ela não ficasse quieta e não fizesse o que ele lhe mandasse. Então, Norma sentou-se na cama e compreendeu que a sua vida estava por um fio e que poderia ser cessada à qualquer instante se ela cometesse alguma imprudência. Então procurou ficar calma e tentou controlar o medo e a ansiedade.

O bandido ordenou-lhe:
- Diz onde estão os objetos de valor. Quero jóias, dinheiro, telefone celular, relógios, computadores portáteis...
Ela lhe respondeu:
- Só tenho um relógio.
TAFF!!! Foi o barulho que ecoou dentro do quarto, resultado da bofetada que o bandido lhe desferira no rosto.
- NÃO BRINQUE COMIGO!!! Esbravejou!
- Diz onde é que estão agora, se não eu vou matar você aqui mesmo!
O seu comparsa então disse:
- Não faça isso com ela...
- Cala a boca! Não te perguntei nada!!! Respondeu irado.
Norma respondeu calmamente: 
- Se você não acredita olhe você mesmo.
O bandido virou-se para o comparsa e ordenou: 
- Vasculhe tudo! E você, Dona, não me dê mais nenhuma ordem. Outra coisa: se ele encontrar alguma coisa de valor aqui, eu vou te matar só pará você aprender a não mentir mais para nenhum vagabundo!

O líder só falava gritando e com muito rancor. A sua face era horripilantemente assustadora. Ela trazia em si a cara da morte, uma feição sisuda e pesada, os olhos esbugalhados que transmitiam todo o mal dentro daquele homem que parecia disposto à qualquer coisa para conseguir os seus objetivos. Visivelmente drogado, movimentava-se com inquietude e impaciência, notavelmente alterado, com as suas pupilas completamente dilatadas.

Norma é uma mulher inteligente, calma e tranquila, recatada nos seu trinta anos de vida, solteira e estudiosa. Uma professora dedicada que ama a arte e a cultura, uma mulher dada à literatura e às relações com todos os tipos de pessoas, sem distinção de raça cor, credo e situação sócio econômica. Ela é simplesmente uma pessoa de bem e do bem que só tem palavras de conforto e edificação para a vida das pessoas. Por ser temente à Deus orava em silêncio, pedindo livramento. Sabia que se chorasse, se gritasse ou alterasse a voz, se orasse em voz alta ou tentasse "converter" o bandido, essas poderiam ser as suas últimas ações. Ela tem consciência  e sabedoria de que viva, seria muito mais útil para si e para a sociedade que tanto lhe intrigava enquanto objeto de estudo, tanto durante a graduação, quanto no mestrado e no doutorado em ciências sociais. Na universidade, tentava junto aos alunos construir uma dialética que pudesse analisar o universo criminoso que está se apoderando da sociedade pós moderna. Seu conceito sobre esses eventos cotidianos a levara a crer que o ser humano não está tão longe assim de suas origens, e que às essas origens está retornando já há muito tempo, gradual e continuamente. Agora ela estava diante do seu objeto de estudo, e se sobrevivesse, pensava nesse momento: teria muita coisa que discutir na academia. Diante de tal fato percebeu ainda mais, que, tantos quantos forem os debates e discussões, análises e reflexões, sejam elas na academia, nas igrejas ou em qualquer outra instituição política ou social, não seriam suficientes para compreender a natureza humana e o seu comportamento anti social, perverso e criminoso. Ainda assim, ela tinha ideias à respeito dos fatos que agora a colocara nas estatísticas que muitas vezes ela mesma elaborou.

O comparsa ladrão após revirar todo o apartamento voltou ao quarto e disse ao seu líder:
- Não achei nada. Agora vou ver aqui dentro...
- Tem certeza? Peguntou o bandido mau.
- Sim! Certeza absoluta.
- Começa a procurar, então!
Ao abrir a porta do guarda roupas o ladrão deparou-se com um relógio digital muito simples e entregou-o ao comparsa, em seguida achou a bolsa da moça, e ao despejar fora todos os objetos, encontrou um cartão do banco, e após quinze minutos de busca e depois de ter revirado todo o móvel, olhou para o colega e disse:
- Não tem nada aqui.
O ladrão irritado, olhou para a Norma e perguntou em tom de aspereza:
Porque você não tem nada em casa? É para não dar para o ladrão?!
Então ela, muito calma lhe disse:
- Eu não sou consumista.
- O que é isso, Dona? O que quer dizer consumista, vê se fala "língua de gente!"
- Quer dizer que eu não tenho o que eu não preciso e não compro o que não gosto. Eu não preciso de jóias e não gosto de telefones, uso um computador de mesa e quem precisar falar comigo liga para a minha casa.

O ladrão ficou com enorme interrogação na cabeça,  e iracundo por ter perdido o seu tempo ali naquele apartamento, pegou o relógio da vítima, pediu a senha do banco, e ela lhe deu prontamente. Em seguida apontou-lhe a arma para a cabeça, e um estampido a Norma ouviu, antes de despertar assustada de tão horrível pesadelo. Olhou ao seu redor e o quarto estava em perfeita ordem. Tudo não passara de um sonho ruim e um tremendo susto. Levantou-se, foi até a sala, verificou se a porta estava mesmo fechada. Faltavam quinze minutos para as cinco da manhã, uma chuva muito forte caia la fora. Olhou pela janela, e o tempo continuava nublado. Escovou os dentes, tomou um copo de leite, voltou para debaixo das cobertas e tomou em suas mãos o velho e companheiro livro do Garcia Marques, e retomou a sua leitura, mas não sem antes refletir sobre a violência na sociedade: O que leva os seres humanos às raias da maldade que nos fazem liberar tanto mau dentro de nós? Com certeza não são apenas as mazelas sociais - concluiu Norma, aliviada por ter tido apenas um sonho ruim, enquanto que para muitos, o que ela vivenciou no sonho é a mais pura e bruta realidade.
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