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Os relacionamentos líquidos e as Redes Sociais

Zygmunt Bauman Psicologia e Comportamento “O amor é mais falado do que vivido e por isso vivemos um tempo...

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domingo, 4 de maio de 2014

Uma reflexão social


Conto
por Austri Junior
Revisado e atualizado as 14hs e 14mim.



Norma acordou cedo naquele dia. Ao abrir a janela do apartamento pôde constatar que o dia estava nublado, e uma leve garôa descia do céu. Do alto de sua janela contemplou as folhas das árvores molhadas, e poças d'água se formando nas imperfeições do asfalto. Levantou o olhar e contemplou o horizonte, onde só haviam prédios. Ela gosta dessa paisagem. Poucas são as pessoas que gostam de prédios e apartamentos, mas a norma é uma pessoa incomum, gosta de viver em apartamentos e não se cansa de observar com satisfação os prédios em seu derredor, como uma adolescente apaixonada. Após alguns minutos dirigiu-se ao banheiro, tomou um banho, escovou os dentes, preparou o café e sentou-se à mesa em sua sala, de frente para a janela, e enquanto saboreava um café forte com pouco açúcar, e rosquinhas salgadas, continuava com o olhar estendido para fora do seu apartamento a contemplar o céu nublado, escuro e cinzento. Ela ama quando o dia está assim. Era um dia de sábado, Norma queria aproveitar para descansar e ler um livro, antes de fazer o almoço. Ainda estava em dúvida se aproveitaria o dia para ler sem ter que interromper  a sua tão amada leitura para preparar o almoço, ou se telefonaria e pediria comida no restaurante próximo de sua residência. Resolveu então ler sem se preocupar... Deixaria essa decisão para depois, pois estava encantada com a leitura que começara no dia anterior dentro do coletivo, indo pra o trabalho. Ela sempre aproveitava todos os instantes que tinha disponíveis para fazer o mais gostava e se dedicar ao que mais lhe encantava: a literatura. Estava lendo "Cem anos de solidão". Então leu a manhã inteira e fez uma pausa para o almoço por volta das doze horas. Resolvera comer apenas uma salada, e voltou para a sua leitura e nela se perdeu até as oito da noite. Só se dera conta da hora avançada quando não deu mais ignorar o grito de fome do seu estômago vazio. Levantou-se comeu um sanduíche,  com pão integral 12 grãos, com uma queijo branco e ricota, algumas folhas de alface, e tomate cru. Tomou um banho quente e gostoso, novamente entrou debaixo de um edredom  quentinho tomou o livro em suas mãos, e retomou a leitura até adormecer, depois de ler por mais três horas com afinco.

Norma dormia tranquila e profundamente, quando um barulho na porta da sala a despertou e lhe fez levantar para verificar o que estava acontecendo. Mal abrira a porta do seu quarto que ficava no fundo corredor que dava para a sala, quando avistou dois homens encapuzados no seu apartamento, e um deles portava uma arma cromada na mão esquerda cujo brilho era impossível de não perceber mesmo na penumbra da sala iluminada pela luz do poste que vinha lá de fora. Pensou em correr para o quarto e trancar-se lá dentro mas não foi possível, o homem armado fora mais rápido que o seu pensamento assustado. Foi puxada pelos cabelos, arrastada para dentro do quarto e jogada em cima da cama com muita violência. Assustada, tentou correr para a janela e gritar por ajuda mas foi brutalmente impedida pela violência cruel e desnecessária do líder, que armado, ameaçou mata-la, se ela não ficasse quieta e não fizesse o que ele lhe mandasse. Então, Norma sentou-se na cama e compreendeu que a sua vida estava por um fio e que poderia ser cessada à qualquer instante se ela cometesse alguma imprudência. Então procurou ficar calma e tentou controlar o medo e a ansiedade.

O bandido ordenou-lhe:
- Diz onde estão os objetos de valor. Quero jóias, dinheiro, telefone celular, relógios, computadores portáteis...
Ela lhe respondeu:
- Só tenho um relógio.
TAFF!!! Foi o barulho que ecoou dentro do quarto, resultado da bofetada que o bandido lhe desferira no rosto.
- NÃO BRINQUE COMIGO!!! Esbravejou!
- Diz onde é que estão agora, se não eu vou matar você aqui mesmo!
O seu comparsa então disse:
- Não faça isso com ela...
- Cala a boca! Não te perguntei nada!!! Respondeu irado.
Norma respondeu calmamente: 
- Se você não acredita olhe você mesmo.
O bandido virou-se para o comparsa e ordenou: 
- Vasculhe tudo! E você, Dona, não me dê mais nenhuma ordem. Outra coisa: se ele encontrar alguma coisa de valor aqui, eu vou te matar só pará você aprender a não mentir mais para nenhum vagabundo!

O líder só falava gritando e com muito rancor. A sua face era horripilantemente assustadora. Ela trazia em si a cara da morte, uma feição sisuda e pesada, os olhos esbugalhados que transmitiam todo o mal dentro daquele homem que parecia disposto à qualquer coisa para conseguir os seus objetivos. Visivelmente drogado, movimentava-se com inquietude e impaciência, notavelmente alterado, com as suas pupilas completamente dilatadas.

Norma é uma mulher inteligente, calma e tranquila, recatada nos seu trinta anos de vida, solteira e estudiosa. Uma professora dedicada que ama a arte e a cultura, uma mulher dada à literatura e às relações com todos os tipos de pessoas, sem distinção de raça cor, credo e situação sócio econômica. Ela é simplesmente uma pessoa de bem e do bem que só tem palavras de conforto e edificação para a vida das pessoas. Por ser temente à Deus orava em silêncio, pedindo livramento. Sabia que se chorasse, se gritasse ou alterasse a voz, se orasse em voz alta ou tentasse "converter" o bandido, essas poderiam ser as suas últimas ações. Ela tem consciência  e sabedoria de que viva, seria muito mais útil para si e para a sociedade que tanto lhe intrigava enquanto objeto de estudo, tanto durante a graduação, quanto no mestrado e no doutorado em ciências sociais. Na universidade, tentava junto aos alunos construir uma dialética que pudesse analisar o universo criminoso que está se apoderando da sociedade pós moderna. Seu conceito sobre esses eventos cotidianos a levara a crer que o ser humano não está tão longe assim de suas origens, e que às essas origens está retornando já há muito tempo, gradual e continuamente. Agora ela estava diante do seu objeto de estudo, e se sobrevivesse, pensava nesse momento: teria muita coisa que discutir na academia. Diante de tal fato percebeu ainda mais, que, tantos quantos forem os debates e discussões, análises e reflexões, sejam elas na academia, nas igrejas ou em qualquer outra instituição política ou social, não seriam suficientes para compreender a natureza humana e o seu comportamento anti social, perverso e criminoso. Ainda assim, ela tinha ideias à respeito dos fatos que agora a colocara nas estatísticas que muitas vezes ela mesma elaborou.

O comparsa ladrão após revirar todo o apartamento voltou ao quarto e disse ao seu líder:
- Não achei nada. Agora vou ver aqui dentro...
- Tem certeza? Peguntou o bandido mau.
- Sim! Certeza absoluta.
- Começa a procurar, então!
Ao abrir a porta do guarda roupas o ladrão deparou-se com um relógio digital muito simples e entregou-o ao comparsa, em seguida achou a bolsa da moça, e ao despejar fora todos os objetos, encontrou um cartão do banco, e após quinze minutos de busca e depois de ter revirado todo o móvel, olhou para o colega e disse:
- Não tem nada aqui.
O ladrão irritado, olhou para a Norma e perguntou em tom de aspereza:
Porque você não tem nada em casa? É para não dar para o ladrão?!
Então ela, muito calma lhe disse:
- Eu não sou consumista.
- O que é isso, Dona? O que quer dizer consumista, vê se fala "língua de gente!"
- Quer dizer que eu não tenho o que eu não preciso e não compro o que não gosto. Eu não preciso de jóias e não gosto de telefones, uso um computador de mesa e quem precisar falar comigo liga para a minha casa.

O ladrão ficou com enorme interrogação na cabeça,  e iracundo por ter perdido o seu tempo ali naquele apartamento, pegou o relógio da vítima, pediu a senha do banco, e ela lhe deu prontamente. Em seguida apontou-lhe a arma para a cabeça, e um estampido a Norma ouviu, antes de despertar assustada de tão horrível pesadelo. Olhou ao seu redor e o quarto estava em perfeita ordem. Tudo não passara de um sonho ruim e um tremendo susto. Levantou-se, foi até a sala, verificou se a porta estava mesmo fechada. Faltavam quinze minutos para as cinco da manhã, uma chuva muito forte caia la fora. Olhou pela janela, e o tempo continuava nublado. Escovou os dentes, tomou um copo de leite, voltou para debaixo das cobertas e tomou em suas mãos o velho e companheiro livro do Garcia Marques, e retomou a sua leitura, mas não sem antes refletir sobre a violência na sociedade: O que leva os seres humanos às raias da maldade que nos fazem liberar tanto mau dentro de nós? Com certeza não são apenas as mazelas sociais - concluiu Norma, aliviada por ter tido apenas um sonho ruim, enquanto que para muitos, o que ela vivenciou no sonho é a mais pura e bruta realidade.
***

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sábado, 6 de julho de 2013

Lembranças de uma professora

Conto
por Austri Junior


Papai era um homem de poucas palavras, discreto, tímido e também de poucas letras. Ele estudara somente até a antiga quarta séria do primário, mas sabia fazer contas como ninguém. Com o pouco estudo que tinha, ensinara-nos as quatro operações básicas da matemática, mesmo antes da hora. Dizia sempre: "Quem sabe fazer contas nunca será passado para traz". Quando a Dona Célia, a nossa professora, adentrava às operações aritméticas mais avançadas tais como a divisão e a multiplicação de dois, três e até mesmo de quatro números bem como a prova dos noves e a prova real, eu e os meus irmãos já sabíamos muito antes... Amávamos ir ao quadro negro fazer os cálculos, sabíamos também fazer o MMC, e a Dona Célia sempre nos pedía para ajudar os outros alunos. Foi daí que nasceu a minha vocação para  professora, e creio que foi por causa do amor que o nosso pai tinha pela matemática, que ao nos transmiti-lo, ajudou-nos na escolha das nossas profissões: os meus dois irmãos, hoje são engenheiros, Paulinho, o caçula,  cursou engenharia elétrica, e o marcos, o mais velho, formou-se em engenharia civil.

Papai tinha muito orgulho de nós, pois gostávamos de estudar e sempre tínhamos um livro nas mãos, e creio que o hábito da leitura em nossa casa também era fruto da influência dele, que além de ser um leitor assíduo - o exemplo fala mais alto que as palavras - também nos contava lindas histórias na hora de dormir. O meu pai era um exímio contador de histórias. Lembro-me de que ele nos tomava pelas mão - o Paulinho e eu - logo pela manhã, e nos levava para a escola, o Marcos ia caminhando ao nosso  lado, e papai seguia conversando conosco durante todo o trajeto para o grupo escolar... Papai sempre aproveitava as situações que se apresentavam à nossa frente para no ensinar algo. Ele estava sempre atento ao mínimos acontecimentos e socializava conosco, coisas simples, como um verdadeiro mestre. Ele era um  homem de muita sabedoria. Lembro-me de uma vez, quando tinha apenas nove anos, e era uma garotinha, estávamos chegando próximo da escola, e havia um homem bêbado e muito bravo, querendo agredir a esposa, papai com toda a mansidão que Deus lhe dera, pediu-nos que esperassem-no afastados, deu ordem ao Marcos - que na época esta com doze anos - que tomasse conta de nós, e então aproximando-se daquele senhor, começou a conversar com ele - de onde estávamos não conseguíamos ouvir o teor da conversa - e em menos de dez minutos, o homem estava abraçado à sua esposa e chorando muito. Papai então, voltou para nós e ajoelhando-se disse para os meu irmão: "Meninos, fiquem sempre longe da bebida, e nunca agridam pessoa alguma, principalmente  uma mulher". Voltando-se para mim, disse: "Filha nunca deixe que homem nenhum lhe agrida, ou grite com você. Dê-se sempre ao respeito, nunca abaixe a cabeça, nunca agrida a ninguém e não deixe que lhe agridam. Ninguém tem o direito de comandar os outros. O que fazem conosco, é porque assim permitimos. Minha filha, não namore e nem se case com homem de vício, nem com homem mentiroso e violento." E olhando para nós três, disse-nos: "Se plantarmos arroz, não colheremos feijão. Quem semeia vento, colhe tempestade." Apesar da tenra idade entendemos perfeitamente a mensagem que papai acabara de nos transmitir. Foi uma mensagem clara e em baixo tom. Papai falava baixo e mansamente.  Nunca ouvira ele levantar a voz para ninguém, nem para o nosso cachorro, o totó...

Mamãe era diferente do nosso pai. Tudo o que ele era, ela era o contrário, mas tinha um coração maravilhoso e era também uma mulher de muita sabedoria e era amada por todos da nossa família e por toda a vizinhança. Mamãe era agitada e falava alto, mas apesar disso eles viviam em perfeita sintonia. Nunca enredemos isso... Sabemos que os oposto se atraem, mas essa regra funciona bem com a eletricidade. Nos relacionamentos humanos o óleo não se mistura com a água, e forma uma mistura heterogênea, mas no caso da mamãe e do papai, a natureza abriu uma grande exceção, e eles viveram casados  e em harmonia por longos cinquenta e seis anos até o último suspiro daquele velo sábio, que sabia como cativar e cuidar das pessoas. Quatro meses depois da morte do papai, mamãe também partiu. Ela não apresentava nenhum problema de saúde, mas após a partida do nosso pai, ela perdeu o gosto pela vida, ficou deprimida e em uma noite deitou-se para dormir, e não acordou mais.

A nossa vida é mesmo assim: nascemos, crescemos, vivemos e partiremos um dia (ou uma noite) qualquer... Enquanto estamos aqui, façamos e demos o melhor de nós. A vida é curta e passa muito rapidamente. O que ficará de nós é o nosso legado. É tão bom que sejamos lembrados pela nossa benevolência, benignidade, bondade, mansidão...Tenho ótimas lembranças dos meus pais, enquanto muitas amigas ainda conservam as mágoas do seus pais mesmo depois de terem partido daqui. Conheço pessoas que ainda carregam no peito grandes dores causadas pelas pessoas que amaram e que lhes parecem não  foram correspondidas. Sempre amei os meus pais e sempre fui amada... Sinto muito falta da mamãe, e o papai era e continua sendo o meu grande herói! 

domingo, 3 de março de 2013

O relojoeiro

Conto
Por Austri Junior

O Big Ben soou doze badaladas... Era meia-noite.
Na escuridão da noite fria londrina ouviu-se o ranger de dobradiças antigas e enferrujadas, vindo de uma pesada porta de madeira antiga e de um sobrado velho, cujas paredes eram muito sujas, apresentando algumas trincas. Uma parca sombra masculina projetou-se na parede do prédio em frente. Sombra essa causada pela pobre e fraca luz que vinha do lampião do único poste que havia na rua, e que iluminava toda aquela redondeza. Trajado totalmente com a cor preta, cujo propósito era mesmo confundir-se com a escuridão noturna, e nela camuflar-se, aquela figura cujo rosto não se podia identificar usava uma indumentária composta de terno, cartola e capa. Um detalhe chamava a atenção: A calça e as botas eram próprias para caçadas. Aquela figura sinistra, cujo rosto não se podia ver, caminhava pelas ruas escuras e perigosas dos guetos de Londres, onde nessa hora da noite, não havia mais ninguém nas ruas. As poucas pessoas que ainda podiam se ver a caminhar eram as prostitutas, os bêbados e os mendigos. Entre eles, pessoas mal intencionadas, como os ladrões e os assassinos. Esses não eram tantos, mas eram o suficiente para levar perigo a quem por essas ruas caminhassem. E o nosso misterioso personagem agora fazia parte desse cenário.

O dia mal amanhecera e as pessoas já podiam ouvir a voz do vendedor de jornais, que aos berros anunciava a manchete do dia:

- Extra, extra! Leiam agora: "Mais uma mulher assassinada"!

Mulheres assassinadas na Londres antiga, em geral eram imigrantes, vindas da Rússia e de outros países europeus em crise financeira e ali chegando, essas mulheres muitas vezes optavam pela prostituição, para conseguirem sobreviver. Isso deu inicio a muito problemas sociais. Contudo, esse fato já era um assunto banal e corriqueiro, porque Todos ali já ouviram falar do famoso Jack, o estripador de Londres. As prostitutas sempre foram alvo da ira de maníacos, assassinos, puritanos e moralistas.

A mesma porta de madeira pesada e antiga no mesmo sobrado velho se abrira nessa manhã, revelando a saída de uma figura masculina, trajando um belo terno de linho, branco, e uma cartola preta estava sobre a cabeça do homem. O Sol de primavera iluminava toda a rua, e Mr. Collins, um cidadão muito respeitado, saíra porta a fora, enquanto esta era fechada atrás de si, e caminhava rumo ao centro da cidade, dentro do seu elegante terno de linho branco, na bôca, um lindo cachimbo de marfim, na mão direita uma linda e luxuosa bengala de marfim cravejada com alguns pequenos diamantes. De longe ele podia ouvir os berros do jornaleiro: "Extra, extra..." Ao entrar na rua principal que dava acesso à sua relojoaria, Mr. Colluins checou as horas, no seu relógio de bolso de ouro maciço, 18 quilates. Ao levantar os olhos avistou o jovem e agitado jornaleiro, que de um lado ao outro da rua, continuava bradando:

- "Extra! Leiam nessa manhã: Mais uma mulher assassinada em Londres"!


Mr. Collins chamou o rapazinho e pediu-lhe um jornal, no que foi prontamente atendido:

- Bom dia Mr. Collins!

- Bom dia Charles.

- Está um lindo dia hoje, o senhor não acha?

- Está sim, Charles.

- Aqui está o seu jornal, senhor.

- Obrigado. Respondeu o relojoeiro, colocando a luxuosa bengala em baixo do braço esquerdo, e enfiando a mão direita no bolso da calça, apanhou uma moeda e entregou ao jovem.

- Mr. Collins...

- Sim, Charles.

- O senhor já vendeu aquele relógio?

- Ainda não. Ele ainda está lá.

- O senhor não me faria um desconto? Já juntei quase todo o dinheiro, e só está faltando um shilling...

- Não! O relógio está la e será de quem o comprar primeiro.


O relojoeiro virou-se, caminhou até a sua loja, abriu a porta, adentrou ao recinto, abriu um armário que estava trancado a chave, pendurou dentro dele a linda bengala com seus diamantes nela cravejados, trancou novamente o móvel e voltou a guardar a chave no bolso direito do paletó. Caminhou até um canto da loja, de onde podia ver a porta de entrada, e o movimentação na rua através da vitrina, então, pôs-se a ler o jornal. Ao ler os detalhes do assassinato da madrugada anterior, narrados pela polícia, deparou-se defronte a uma importante informação: "Devido as proporções dos ferimentos, constatamos sem sombra de dúvida que o assassino desferiu os golpes com uma faca, usando a mão esquerda, como das outras vezes", disse o inspetor de polícia na entrevista ao repórter. Diante desse fato, recostou a cabeça no encosto da sua cadeira de balanço antiga, feita de Pau-Brasil, e disse para si mesmo:

- Uma a menos! Limparei essa cidade da imoralidade, mesmo que tenha que gastar toda minha fortuna. Afinal estou pagando muito bem ao "Canhoto"...


Mal o relojoeiro acabou de pronunciar a sua frase, o cachimbo de marfim caiu da sua mão, os olhos se fecharam e a cabeça pendeu para o lado esquerdo, Um infarto fulminante lhe tirara subitamente a vida. Ele não viveu para "limpar" as ruas de Londres, e agora, a sua fortuna não servirá mais ao moralismo e não mais será a juíza e a carrasca da sociedade. O Criador interrompera os  atos malignos de Mr. Collins e o chamara a prestar contas de todos eles.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A espera

Conto
Por Austri Junior

O sol começava dar sinal de que iria despontar em breve. Da praia, uma jovem moça olhava fixamente para o horizonte, donde podia ver a junção do mar com o céu, e entre nuvens que iam desde um tom cinza mais claro, até um tom mais escuro, e em algumas partes, tudo estava muito escuro, pois havia chovido muito durante a madrugada. Eram cinco horas da manhã, e ela já estava alí, com um "olhar comprido" mirando atentamente ao longe, enquanto as ondas do mar bravio, arrebentavam na areia. Juliana, môça bonita, de tez morena, de olhos grandes e amendoados, cabelos negros e lisos, já se encontrava nessa angustiosa espera desde as quatro horas da manhã. Durante esse tempo, Juliana caminhava de um lado a outro, vez em quando abaixava-se pegava uma estrela marinha e devolvia-a de volta ao mar, outras vezes, ecrevia algo na areia, ou então densenhava alguma coisa com uma varinha que apanhara alí na praia... Tudo quanto alí escrvia ou desenhava tinha a ver com o seu amor pelo "João da Canoa".

O João da Canoa recebera esse apelido ainda na  infância, pois quando moleque vivia roubando as canoas dos pescadores para dar uma "voltinha" pelos canais de mangues da Ilha das Garças(*), lugarejo que concentrava uma grande colônia de pescadores, e onde vivia com sua família. A sua mãe era catadora de caranguejos, e o seu pai era pescador. O João desde de tenra idade, contribuia  com a economia doméstica. Junto às irmãs, ajudava a sua mãe na cata de caranguejos nos manguesais da ilha, mas o que ele queria ser mesmo, era pescador como o seu pai, o Zé Catraeiro, o melhor pescador da região.

Juliana também era filha de pescadores, e durante a infância, enquanto o seu pai estava no mar, ela e os irmãos também catavam caranguejos com a mãe, assim como todas as famílias do lugar. Os habitantes da ilha pescavam tradicionalmente desde os seus antepassados, e em suas embarcações levavam tudo para o continente para vender ou trocar por provisões, aquelas que eles não tinham como plantar, ou produzir em seus próprios terrenos. A Ilha das Garças é um muito lindo lugar, habitado por gente pobre, humildes trabalhodras. Gente honesta e sonhadora que desejam uma vida melhor, e por isso trabalham incansavelmente, enfrentando os perigos da natureza, com muita coragem, bravura e determinação...

Como ninguém está livre das tragédias, principalmente as gentes pobres, Juliana  enquanto esperava na praia, pelo seu grande amor - eles namoravam desde a adolescência -  não conseguia deixar de pensar na trágica perda familiar, envolvendo de uma só vez a morte do seu pai, de um irmão, de dois tios, e do seu sogro, o João Catraeiro, de uma só vez, quando três anos atrás (ela ainda com dezessete anos e o seu namorado João com dezoito), saíram para o alto mar e foram surpreendidos por terrível e brava tempestade, e nunca mais retornaram. As embarcações de busca acharam somente destroços do barco de pesca em que estavam. Por isso a aflição da moça, que andava de um lado para o outro... As vezes se asentava em um tronco de árvore velho, que repousava deitado na praia, rezava com toda fé do mundo e pedia proteção para o marido João, enquanto fazia promessas, caso este chegasse em casa com vida. Pedia a Deus que permitisse ao marido ver o primeiro filho deles, que estava para nascer em apenas algumas semanas.

Por volta das seis horas da manhã, com o céu claro e poucas nuvens escuras espaçadas lá no alto, e o sol já esquentando a sua pele, Juliana agora acompanhada de outras aflitas esposas, mães e filhas, levantou a cabeça e foi então que viu, quando o barco do João brilhou lá longe. O sol com seus raios límpidos e lumimosos fazia refletir o mastro de alumínio da embarcação, aumentando as esperanças das famílias que alí estavam à espera dos seus queridos, enquanto o barco se aproximava da praia seguido por um grande bando de belas e brancas gaivotas. Bom sinal!

Mal o barco chegou à praia, o João pulou n'água e veio nadando ao encontro da sua amada. Juliana também lançou-se nas águas do mar agora mais mansas, cheia de saudades, em um mixto de euforia e alívio, caminhando contra as ondas que banhavam a sua barriga, e ao se encontrarem no meio do caminho, beijos, abraços e choros de felicidades. Juliana sentiu o bebê mexer dentro de si, e pensou: Graças a Deus!

(*) Nome fictício