sexta-feira, 21 de março de 2014

Professor ou educador?

Educação

Nem todo professor é um educador


Na minha curta trajetória dentro das escolas públicas tive a oportunidade ver e aprender muitas coisas. Ao contrário do que parece, sou muito observador, mesmo quando estou conversando, brincando e sorrindo estou vendo tudo. Não falo nada, não jogo charadas nem piadas, mas nada me passa desapercebido. E quanto mais o tempo vai passando vamos ficando mais experientes. Quanto mais experientes, mais aprendemos a desenvolver um olhar clínico, e nesse ponto, mesmo à distância, eu vejo muitas coisas. Nessa efêmera trajetória pude observar com muita nitidez e com muita frequência duas situações:
1 - Nem todo professor é um educador;
2 - Há professores que não servem como educadores.
Praticamente as duas situações são a mesma coisa, porém há uma pequena diferença: o professor que não é educador pode se tornar educador algum dia, mas aquele professor que não serve como educador, jamais o será em dia algum. Porque aqui está a diferença: O educador já nasce educador!

Quantas vezes ouvimos dizer que "pau que nasce torto morre torto"? Bem, no caso do pau, pode ser verdade, a não ser que o jardineiro lhe faça uma intervenção "ortopédica" amarrando-o à uma haste fincada ao seu lado enquanto ainda esse está verdinho, ou em tenra idade, pois depois de velho, ou arrancado da árvore será impossível. Também sempre ouvimos dizer que profissionais não nascem profissionais, são construídos ao longo do caminho, também é verdade, mas o educador nasce educador e passa por um processo de aprimoramento e lapidação ao longo do caminho, enquanto estuda e se capacita para exercer a profissão de professor, e depois, quando já está ocupando a função. E é aí que conseguimos perceber se esse professor serve ou não serve para ser realmente um educador.

O texto está sendo escrito no gênero masculino mas estou me referindo à ambos os gêneros, portanto, tenho visto muitas professoras (e professores) com enorme apatia pelo seu trabalho e cheias de antipatia pelos seus alunos, são pessoas que não se importam o mínimo com a educação, muito menos com os seres humanos que dependem delas, são pessoas que estão lecionado porque "no magistério é muito mais fácil arrumar emprego", ou, ainda estão lecionando porque já estão "velhas para mudar de profissão e aventurar". 

Muitas moças - ouço isso com frequência da própria boca de quem fala - foram fazer pedagogia porque é fácil e barato, ou fizeram vestibular para a licenciatura em artes porque é fácil de passar... Não quero ser pejorativo e falar de uma ou duas classes especificamente, só estou citando alguns exemplos. Professores que não servem para ser educadores existem em todas as disciplinas e em todas as áreas do conhecimento, e não somente em escolas públicas mas também nas escolas particulares, nas universidades e nas faculdades. Quem estuda ou trabalha com esses profissionais sabem disso.

Boa parte de quem se diz educador está preocupado apenas com o contracheque no final do mês, uma outra parte está preocupada com as greves e assembleias, e uma minima parte - e demos graças a Deus por isso - estão realmente envolvidas com a educação e com os seus educandos. Já disse isso antes aqui no blog e vou repetir pois o texto pede:  "O professor é aquele que chega em sala de aula e oferece apenas o conteúdo, enquanto que o educador envolve e se envolve com a disciplina, com o conteúdo e com os educandos. Para ser um bom educador é preciso gostar de gente".

É verdade! Os professores que não servem como educadores adentram á sua sala de aula (algumas vezes ou sempre) mau humorados. Passam o conteúdo na lousa e mal explicam a matéria. Muitas vezes com exacerbada preguiça, mandam o aluno copiar do livro. Fico intrigado com isso: porque copiar do livro, se já está no livro? Não seria melhor explicar o conteúdo do livro, estimular o debate sobre o assunto, tirar as dúvidas dos alunos, incentivar a pesquisa sobre o assunto na biblioteca para estimular a leitura e o gosto pelo conhecimento, buscar pesquisar também na internet, utilizar formas lúdicas, interativas e alternativas com um bom gancho pedagógico dentro da sala de aula e fora dela...? Mas isso dá muito trabalho, e esse tipo de professor não quer fazer um mínimo esforço que seja, para o seu aluno aprender e crescer.

Dar aula é difícil, eu sei. Principalmente quando o aluno não quer aprender. Existem turmas difíceis, indisciplinadas, desrespeitosas. Existem estudantes que vão à escola para fazer de tudo, menos estudar.... Muitas escolas não tem biblioteca, muito menos laboratório de informática, falta material didático, um simples pincel para escrever, um simples livo para ler... Muitos alunos não têm acesso à internet em casa e nem interesse. A maioria não faz nem a tarefa para casa. Mas é aí que entra o professor/educador. Ele conquista a turma, envolve a turma com a sua matéria (mesmo que seja a matemática, pois essa é uma matéria que muitos não gostam ou têm medo dela). O educador pesquisa, busca incansavelmente e cria novos métodos de ensino, ajuda os educandos a superarem as suas dificuldades, atende-os nos horários vagos e até mesmo na hora do recreio, conversa com os seus educandos e com os pais deles. Nem tudo é caso para coordenação ou suspensão. Boa parte dos casos se resolvem com conversas, mas dá trabalho.

Tornar-se professor apenas para não ficar desempregado, ou porque é fácil passar no vestibular ou por qualquer outro motivo que não seja vocação é uma grande perda de tempo. É melhor fazer outra coisa. Para ser professor é preciso antes de tudo ser um educador, ou tornar-se um (contrariando o que eu disse acima: "O educador nasce educador"). Entretanto a maioria dos educadores já nascem educadores. Educadores são aquelas pessoas que gostam de pessoas. Pessoas crianças, pessoas adolescentes (que são as mais difíceis), pessoas jovens, pessoas adultas, pessoas... 

Pessoas são difíceis, as vezes são desrespeitosas, "mau criadas", cínicas, abusadas (e as vezes abusadas mesmo. No sentido literal da palavra, e por isso são difíceis). Há pessoas ríspidas, mau humoradas, negligentes, desleixadas (as vezes essas pessoas fedem no sentido literal da palavra). O educador sabe lidar com tudo isso e muito mais. Quando não consegue pede ajuda. Educadores não são super heróis invencíveis como esses dos gibis e dos desenhos animados. São seres humanos com problemas, dúvidas, dificuldades, vulnerabilidades e fraquezas.

Há dias em que o educador quer jogar tudo para o alto, e as vezes joga mesmo. Mas os educadores também sabem reavaliar as suas posições, sabem compreender a posição dos outros, praticando a alteridade e estão sempre dispostos a recomeçar e ajudar os outros. Também precisam de ajuda! Há professores e educadores que pelas dificuldades (amplas e gerais) mudam o vértice, desistem e vão embora. Não os julguemos, pois cada um sabe de si. De qualquer forma, os dois são heróis em enfrentar essa educação caótica que está aí: Salários baixos, violência nas salas de aula, desvalorização da categoria, burocracia nas leis (são deferidos em processos seletivos e não podem assumir porque o órgão público quer fugir ao vinculo empregatício). Falta de concursos públicos, falta de plano de carreira e salários... Todo herói tem a sua Kriptonita!

2 comentários:

António Jesus Batalha disse...

Blog encantador,gostei do que vi e li,e desde já lhe dou os parabéns,
também agradeço por partilhar o seu saber, se achar que merece a pena visitar o Peregrino E Servo,
também se achar que mereço e se o desejar faça parte dos meus amigos virtuais faça-o
de maneira a que possa encontrar o seu blog,irei seguir também o seu blog.
Deixo os meus cumprimentos, e muita paz.
Sou António Batalha.

Austri Junior disse...

Muito obrigado pelo seu comentário, Antonio de Jesus Batalha!